Make It Clear Brasil

Um apoio ao livre pensamento e a um entendimento do mundo baseado em evidências

Especial: a crise do etanol no Brasil

   Aproveitando-me do excelente artigo “Quatro fatores para entender a crise do etanol” escrito por Mariana Della Barba com a colaboração de Paula Adamo Idoeta (segue link), quero inaugurar uma seção especial do blog à qual quero me dedicar com regularidade. Serão estudos mais profundos com a opinião do autor acerca de assuntos específicos em voga (o leitor pode se sentir livre para sugerir temas, inclusive). Já adianto um pedido de desculpas se o leitor considerar os artigos extensos demais e prometo fazer o possível para me ater aos temas de forma concisa.

   Inicialmente, farei um resumo dos quatro fatores que, segundo o artigo citado, emperram o crescimento da produção de etanol no Brasil. São eles:

  • Falta de planejamento a longo prazo: segundo especialistas, a falta de uma política governamental consolidada para o setor sucroalcooleiro implica numa dificuldade de dissociar a produção de etanol da produção de açúcar, pois este vem apresentando preço mais vantajoso no mercado internacional e guia os produtores na sua direção. Dissociá-los significaria que as usinas poderiam se dedicar exclusivamente à produção de etanol, mantendo constante (senão crescente) a oferta do produto. Este planejamento requerido se contrasta com as medidas esporádicas de incentivo ao setor, como as apresentadas na semana passada (22 a 26 de abril).
  • Peso da gasolina na economia: é fato que o consumo de etanol nos carros flex vem caindo em função do custo crescente que este tem em relação à gasolina, cujo preço é controlado pelo governo em prol das metas de inflação, o que prejudica a competitividade do etanol. Segundo a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), é necessário ampliar a oferta de álcool combustível nos postos para garantir preço mais baixo nas bombas e deixar o preço da gasolina flutuar no mercado interno.
  • Produtividade: de acordo com o artigo, a crise financeira de 2008 teria encolhido o crédito, o que encarece os custos de plantio e replantio além de prejudicar novos investimentos. A falta de dinheiro prejudica, desta forma, a manutenção dos canaviais, resultando em perda de eficiência no uso do solo/ produtividade. Ainda, o engenheiro agrônomo José Baccarin cita a mecanização como empecilho à produtividade, uma vez que o corte mecânico “acaba desperdiçando parte da cana por não cortar tão rente ao solo, como o manual”.
  • Questões climáticas: a última parte do artigo traz a questão climática como fator que reduziu a produtividade dos canaviais nas últimas safras: “Uma foi seca demais; outra, muito chuvosa e a terceira (em 2012), veio acompanhada de geada que atingiu várias plantações”.

Feito o resumo, passemos às considerações que mais enumeram perguntas que as respondem. É evidente que falta planejamento governamental ao setor sucroalcooleiro de modo que este seja inserido de forma definitiva na matriz energética nacional. Do combustível ambientalmente correto e produtivo alardeado pelo ex-presidente Luis Inácio da Silva ao redor do mundo para o etanol utilizado por apenas 27% da frota flex fuel em 2012 (segundo pesquisa do braço de investimentos do Itaú), a derrocada do etanol passa pelo preço abusivo cobrado nos postos em função da competição de sua produção com a do açúcar – direcionada ao mercado externo como, também, por carteis de distribuidores. Alguns dirão que interferir nas decisões dos empresários prejudica as empresas, que seriam obrigadas, por exemplo, a fornecer estoque mínimo de etanol par a manutenção de um preço baixo nos postos; isto os levaria a um investimento de menor rentabilidade que a do açúcar, porém incentivaria os proprietários de automóveis a abastecer seus veículos com etanol. Qual seria o maior efeito? Espero pelos comentários.

Em segundo lugar, a mão de ferro que o governo lança sobre o preço da gasolina prejudica, sim, a competitividade do etanol e afeta negativamente o caixa da Petrobras – desnecessário dizer que isto prejudica os investimentos da empresa que tem pela frente a exploração do pré-sal. Porém, sem tal manejo de preço, a gasolina acompanharia a tendência de valorização do barril de petróleo e elevaria a – já companheira do brasileiro – inflação, fato que minaria as chances de reeleição de Dilma Rousseff. Neste contexto, valeria a pena diminuir o poder de compra do brasileiro para salvar um setor econômico de forma imediatista? Na minha modesta opinião, seria preferível controlar a inflação via investimento em infraestrutura e reformulação das leis trabalhistas e tributárias, o que exigiria mais que um mandato presidencial ou parlamentar.

Finalmente, cabe lembrar que a maior propaganda que se pode fazer do etanol é sua vantagem ambiental face aos combustíveis fósseis. A colheita mecanizada é um alento para este propósito, pois evita as queimadas pelo menos nas regiões cuja declividade dá suporte aos corte mecânico. Falar-se em perda de produtividade por uso de colheitadeiras modernas é perigoso, senão enganoso, e prefiro pensar que mais investimentos podem ser feitos para se aproveitar o álcool residual (produzido com o bagaço da cana).

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/05/130424_etanol_mdb.shtml

Complete o artigo com seus comentários!

(O autor é economista graduado na Universidade Estadual Paulista – Unesp)

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 3 de Maio de 2013 by in Economia and tagged , .

Navegação

%d bloggers like this: