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Por que morremos?

“[…] Além das razões particulares, algumas explicações mais gerais têm sido propostas. Por exemplo, a teoria de que a senilidade representa uma acumulação de erros de cópia nocivos e de outros tipos de alterações genéticas que ocorrem durante a vida de um indivíduo. Outra teoria, elaborada por Sir Peter Medawar, constitui um bom exemplo do pensamento evolutivo em termos de seleção genética. Medawar rejeita, em primeiro lugar, os argumentos tradicionais, tais como: ‘Os indivíduos velhos morrem num ato de altruísmo para com o resto da espécie porque, se permanecessem vivos quando estivessem demasiado decrépitos para se reproduzir, entulhariam o mundo inutilmente’. Como indica Medawar, trata-se de um argumento circular, que assume, de saída, aquilo que pretende provar – que os animais velhos são decrépitos demais para se reproduzirem. […] A teoria do próprio Medawar tem, por sua vez, uma lógica admirável. Para compreendê-la, precisamos levar em conta o que segue.

[…] Outra qualidade geral que os genes bem-sucedidos terão é a tendência para postergar a morte das suas máquinas de sobrevivência, pelo menos até depois da reprodução. Não há dúvida de que alguns dos nossos primos e tios-avós morreram durante a infância, porém o mesmo não ocorreu com nenhum dos nossos antepassados. Os antepassados, pura e simplesmente, não morrem jovens!

Um gene que leve os seus possuidores à morte é chamado de ‘gene letal’. Um gene semiletal é aquele que provoca um efeito debilitante que aumenta a probabilidade de o seu possuidor morrer por outras causas. Qualquer gene exerce o seu efeito máximo nos corpos em algum período particular da vida, e os genes letais e semiletais não são exceções. A maior parte dos genes exerce a sua influência durante a vida fetal, outros durante a infância, outros durante a juventude, outros na meia-idade e outros ainda na velhice. (Note-se que uma lagarta e a borboleta em que ela se transforma têm exatamente o mesmo conjunto de genes.) Os genes letais, obviamente, tenderão a ser removidos do pool de genes. No entanto, é igualmente óbvio que um gene letal de ação tardia será mais estável no pool de genes do que um gene letal de ação precoce. Um gene que seja letal num corpo mais velho poderá, ainda assim, obter êxito no pool gênico, desde que seu efeito letal ão se manifeste até que o corpo tenha tido tempo para deixar pelo menos alguns descendentes. Por exemplo, um gene que provocasse o desenvolvimento de um câncer nos corpos já velhos poderia ser transmitido a inúmeros descendentes porque os indivíduos se reproduziriam antes de contrair a doença. Por outro lado, um gene que provocasse o  desenvolvimento de um câncer nos corpos jovens não seria transmitido a muitos descendentes, e um gene que provocasse o câncer em crianças não seria transmitido a nenhum. De acordo com essa teoria, então, o declínio senil é tão-somente um subproduto da acumulação, no pool gênico, de genes letais e semiletais de ação tardia, que conseguiram escapar da peneira da seleção natural simplesmente porque são de ação tardia.”

   pool gênico: conjunto de todos os alelos que “disputam” espaço para ocupar o mesmo locus (lugar) no cromossomo.

Extraído de DAWKINS, Richard (1976). O gene egoísta. pp 96-98.

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This entry was posted on 4 de Maio de 2013 by in Biologia and tagged , , , , , , .

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