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Especial: David Hume, Milagres e o Pensamento Religioso

David Hume

David Hume (1711-1776), retratado por Allan Ramsay em 1766

No Especial desta semana, o blog aborda a Seção X do livro An Enquiry Concerning Human Understanding, publicado por David Hume em 1748 e traduzido como Investigação Acerca do Entendimento Humano. Hume (imagem) foi um filósofo e historiador escocês conhecido por fazer parte do movimento do empirismo, que propõe a experiência como única formadora do conhecimento. A Seção X, intitulada “Dos milagres”, é notória por submeter ao emprego da razão os testemunhos que “comprovariam” supostos milagres, como veremos. (Como as citações empregadas serão extraídas, em sua totalidade, do livro já citado, tomo a liberdade de omitir as referências, o que não me dispensa do uso das aspas.)

Primeiramente, a questão que Hume pretende responder não diz respeito à existência de milagres propriamente dita; de fato, o autor não exclui esta possibilidade ao dizer, no final do capítulo,  que “seria possível haver milagres ou violações do curso ordinário da na­tureza, levando-nos a admitir uma prova derivada do testemunho humano; embora, talvez, seja impossível deparar com semelhante mi­lagre em todos os anais da história”, desde que certas condições fossem obedecidas, tais como a ocorrência de evento extraordinário de lembrança forte entre as pessoas e a universalidade do testemunho. Hume se concentra na força de argumentos e testemunhos quando contrapostos à experiência humana (ver lição de Dr. Peter Millican, do Royal Institute of Philosophy, Reino Unido).

Para Hume, é fato que a experiência (a observação) é o único guia do raciocínio humano, mas também ela é falível. Nas palavras dele, “[t]odos os efeitos não resultam com a mesma segurança das supostas causas” e, portanto, existe uma relação de incerteza de menor ou maior grau entre eventos já observados e as previsões de sua ocorrência ou suas consequências no futuro. “Um homem sábio”, então, deposita sua crença num fato de forma proporcional à evidência. Quando a experiência se mostra infalível, o grau de segurança é máximo e transforma experiência em prova completa; nos demais casos, devem ser pesadas as experiências contrárias para que a pessoa se apoie no lado que possui maior número de experiências. Neste segundo caso, subtrair os números menores dos maiores nos dá a força exata da evidência superior, denominada probabilidade.

Passemos ao depoimento humano e aos relatos de testemunhas: “nossa segurança em qualquer argumento deste gênero não deriva de outro princípio senão da constatação da veracidade do testemunho humano e da conformidade usual dos fatos com os relatos das testemunhas”. Da mesma forma que a experiência nos permite deduzir a veracidade de algum objeto, a experiência em relação ao relato humano determina o grau de confiança que nele podemos depositar. Fatores como a tenacidade da memória e a inclinação para dizer a verdade influenciam positivamente a confiança em um relato, enquanto que uma pessoa sádica ou louca não inspira confiança em ninguém (conforme a lição de Peter Millican).

A evidência baseada no depoimento deriva, então, “da oposição de testemunhos contrários, do caráter ou do número de testemunhas, da maneira como eles produzem seus testemunhos ou da união de todas essas circunstâncias”. Quando há contradições nos testemunhos, quando estes são poucos ou dados por indivíduos com interesse pessoal na matéria, o argumento perde força ou é aniquilado. Supondo que o fato que o testemunho tenta corroborar seja extraordinário, a improbabilidade do objeto resulta da averiguação de quão incomum seria o evento. Um evento raríssimo entra em conflito com o testemunho, de modo que a experiência superior determina a inclinação do indivíduo entre crer e descrer apenas na margem que sobrou da destruição desta pela experiência em contrário.

David Hume define milagre como “uma violação das leis da natureza”; e como uma experiência invariável as estabeleceu, a prova contra o milagre “é tão completa como qualquer argumento da natureza que se possa imaginar”. Não se considera milagre nada que possa ocorrer na natureza normalmente. Esta experiência uniforme equivale a uma prova direta  completa contra a ocorrência de milagres, que só pode ser refutada por evidência superior. Sendo um evento alegado realmente miraculoso, e tomando o depoimento por si mesmo como uma prova, temos uma prova contra outra. No caso, a prova mais forte deve prevalecer, mas tendo seu poder diminuído em função da evidência oposta.

A consequência do exposto acima (e máxima de Hume) é que:

                “não há testemunho suficiente para fundamentar um   milagre, a menos que o              testemunho seja tal que sua falsidade seria ainda mais miraculosa que o fato que pretende estabelecer; e mesmo neste caso há mútua destruição de argumentos, e o              argumento mais forte nos dá apenas uma segurança proporcional ao grau da força     depois da dedução da força inferior.

Hume completa o argumento dizendo que, se alguém lhe dissesse ter visto um morto ressuscitar, sua reação seria a de considerar mais provável que a pessoa queira enganá-lo ou esteja errada do que o fato que ela alega ter ocorrido.

Anteriormente, consideramos o testemunho como prova completa, o que não é necessariamente verdade por quatro razões citadas pelo filósofo:

1. não há registro histórico de nenhum milagre atestado por número suficiente de pessoas de indubitável integridade, instrução e bom senso que teriam muito de sua imagem a perder se os feitos alegados fossem comprovadamente falsos;

2. fatos maravilhosos “em escala ordinária” são facilmente refutados porque, nos princípios que orientam nosso raciocínio está a prática de assemelhar objetos dos quais não temos experiência a objetos dos quais a temos fartamente, tal que o mais usual é sempre mais provável; porém, quando o testemunho propõe eventos mais absurdos e miraculosos, a surpresa e a admiração podem tomar conta do ser humano numa sensação tão agradável que nos leva a crer sem sopesar as probabilidades, mesmo que o fato nos seja comunicado de segunda mão;

3. os relatos sobrenaturais se proliferam preferencialmente entre “nações ignorantes e bárbaras” e, se um povo “civilizado” os admite, é porque os recebeu de ancestrais ignorantes e bárbaros.

4. não há testemunho favorável a nenhum prodígio que não seja contradito por número infinito de testemunhas e esta contradição é especialmente verdade no caso das religiões, uma vez que o milagre que se alega em nome de um deus destrói os testemunhos que atribuem outros milagres a outras divindades.

“Portanto”, conclui Hume, “parece que jamais qualquer espécie de testemunho a favor de um milagre tem chegado  a ser provável, e muito menos uma prova; e que, mesmo supondo que chegasse a ser uma prova, seria oposta por outra prova, derivada da própria natureza do fato que tenta estabelecer.” A experiência confere autoridade ao testemunho humano, e a mesma nos assegura das leia da natureza. Assim, quando os dois tipos de experiências são confrontados, faz-se a subtração de um pelo outro para que o resto origine nossa confiança. Mas, no caso das religiões populares, este resto “equivale a uma completa anulação; e, portanto, podemos estabelecer como princípio que nenhum testemunho humano é dotado de suficiente força para provar um milagre e torná-lo a base justa de um determinado sistema religioso.”

Para maiores informações, leia Investigação Acerca do Entendimento Humano (1748): http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/hume.html.
Acesse também a lição de Peter Millican: http://www.davidhume.org/papers/millican/2009%20Religious%20Belief%20Miracles%20David%20Hume%20ppt.pdf.

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2 comments on “Especial: David Hume, Milagres e o Pensamento Religioso

  1. Pingback: Especial: Epistemologia, o Estudo do Conhecimento | Make It Clear Brasil

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