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Traduzindo: “On the Origin of Really Shiny Species”

Estorninhos. Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Estorninho comum, por Pierre Selim; Estorninho esmeralda, por Doug Janson; Estorninho-de-peito-dourado, por Perry Quan; Estorninho soberbo, por Sumeet Moghe; Estorninho-de-dorso-violeta, por Doug Janson; e Long-tailed glossy starling, por Thom Haslam.

Sobre a origem das espécies muito brilhantes

Se você falar de um estorninho [starling], a maior parte das pessoas na Europa e América do Norte vai pensar em um pequeno pássaro de plumagem preta e lustrosa. Mas este é apenas o estorninho comum [common starling]. É só uma das 113 espécies de estorninho, muitas das quais possuem penas mais espetaculares. Dê uma olhada na seleção acima.

Estas plumagens resplandecentes não apenas atraem os olhares. Elas também podem explicar a razão de estes pássaros serem tão diversos. De acordo com um novo estudo de Rafael Maia, da Universidade de Akron, as cores dos estorninhos os tornaram mais evoluíveis, acelerando sua divisão em mais e mais espécies.

Muitas aves produzem belas penas usando pigmentos que absorvem e refletem seletivamente diferentes cores da luz. Mas os estorninhos devem suas cores mais deslumbrantes às  próprias estruturas das penas.

Assim que a luz atinge as penas, encontra várias camadas. Em cada uma, parte da luz é refletida e o restante atravessa. Se as camadas estiverem igualmente espaçadas, os raios refletidos amplificam-se uns aos outros para produzir cores excepcionalmente fortes, que podem mudar dependendo da distância entre as camadas ou do ângulo pelo qual são vistas. Este efeito é chamado de iridescência. Você pode vê-lo nas gargantas vistosas dos beija-flores, nas penas das caudas dos pavões e nas plumagens de diversos estorninhos.

As camadas consistem principalmente de pequenas estruturas pigmentadas chamadas de melanossomos, que são encontrados em todas as penas de aves. Na sua forma mais simples, têm formato de bastões sólidos. Mas os estorninhos agregaram três tipos de penas luxuosas ao topo deste modelo básico. Alguns evoluíram melanossomos mais achatados, o que os deixa acomodar mais camadas no mesmo espaço. Outros evoluíram melanossomos ocos, o que lhes dá ainda mais camadas, já que a luz atravessa paredes sólidas e interiores vazios. Outros, ainda, têm melanossomos ocos e achatados.

Quando Maia pensou nessas cores estruturais, foi surpreendido pela facilidade que os estorninhos teriam para desenvolver uma palheta completamente diferente. ‘Só o que precisa mudar é o quão grossas as camadas são, ou o quanto estão separadas’, diz. Em contraste, seria muito difícil começar a produzir novos pigmentos. Seriam sempre necessários modos de conduzir os ingredientes certos por um novo conjunto de reações químicas – o equivalente à construção de uma fábrica completamente nova só para fazer um carro de um modelo sutilmente diferente. Para desenvolver uma nova cor estrutural, você só precisa rearranjar um pouco as peças.

Olhando para a árvore genealógica dos estorninhos, Maia descobriu que os melanossomos simples evoluíram nos três tipos complexos. Apesar de os tipos complexos poderem se alterar entre eles mesmos, eles nunca retornam ao estágio original dos bastões sólidos. ‘Pensei que talvez houvesse uma grande mudança para frente e para trás’, ele diz, ‘mas, na realidade, uma vez que essas estruturas complexas evoluem, permanecem assim’.

Como os melanossomos mudaram de formas simples para complexas, as cores dos estorninhos ficaram cerca de 80% mais brilhantes. O espectro também se expandiu, o que você pode ver na imagem abaixo. Cada ponto representa a cor das penas de um estorninho, e espécies com melanossomos complexos (pontos vermelhos, azuis e verdes) carregam uma gama mais vasta de cores do que as que têm melanossomos sólidos (pontos roxos). ‘Uma vez que existir certo passo evolucionário, você pode abrir o leque de cores que pode produzir’, diz Maia.

Topo: quatro tipos diferentes de melanossomos: bastões sólidos; achatados; ocos; ocos e achatados. Abaixo: cores produzidas pelos quatro tipos de melanossomos; pontos brancos representam cores não-iridescentes.

Porém, os estorninhos com melanossomos ocos ou achatados não têm apenas um espectro mais diverso – também têm um espectro que se diversifica mais rapidamente. Maia descobriu que suas cores mudam de 10 a 40 vezes mais que a taxa de seus primos com melanossomos simples. Eles ainda produziram novas espécias a taxas mais rápidas.

Tudo isso faz sentido. Assim que evoluíram os melanossomos mais complexos, os estorninhos puderam produzir diferenças dramáticas de coloração ajustando minúsculos detalhes, como a espessura das paredes ou a densidade das camadas. A seleção natural de repente teve mais peças para montar e, já que os estorninhos dependem das cores para reconhecerem-se e escolher parceiros, o espectro em rápida mudança acentuaria velozmente as diferenças entre populações separadas, consumando a divisão em novas espécies.

Isto provavelmente não teria ocorrido se as cores dos estorninhos fossem produzidas por pigmentos. Considere um canário.  Ele obtém sua cor amarela de pigmentos chamados carotenóides, que desempenham função importante no seu sistema imunológico. Se um indivíduo pode encaminhar estas substâncias para suas penas, é porque goza de boa saúde, o que torna a cor um sinal de qualidade. Um canário doente simplesmente não consegue ser tão amarelo quanto um sadio. Mas se o pássaro utilizar este sinal sincero, é difícil evoluir um novo que seja igualmente verdadeiro. Seria necessário que produzisse um conjunto inteiramente novo de substâncias químicas que fossem, ao mesmo tempo, visíveis para o observador e atreladas à saúde da ave.

Os estorninhos também usam suas cores estruturais como sinais honestos. Aves saudáveis e bem nutridas produzem sinais cores iridescentes mais fortes que as doentes e famintas. Mas estas aves demonstram sua qualidade produzindo um molde uniforme. Não importa se seus melanossomos têm iridescência azul ou roxa, contanto que sejam construídos sob as mesmas especificações e arranjados uniformemente. A estrutura importa. A força da iridescência importa. A cor não. Isto significa que os estorninhos podem produzir todo um espectro de cores que seja igualmente honesto. Eles estiveram livres para se diversificar em formas ainda mais resplandecentes sem sacrificar a confiabilidade das mensagens contidas na sua plumagem.”

Por Ed Yong, National Geographic.

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