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Traduzindo: “How a new species is named”

Como uma nova espécie é nomeada

Identificar uma população ou espécime representa o primeiro passo da taxonomia, e então se precisa de um nome, escreve o Dr. Dave Hone.

Assim que você identificar o que pensa ser uma nova espécie, vai precisar de um nome. Infelizmente não é apenas o caso de imaginar um nome e anunciar para o mundo (apesar disso fazer parte), mas uma fonte confiável de informações e a documentação da identidade da espécie é requerida para o novo tipo.

Primeiro de tudo, um holótipo deve ser designado, isto é, um exemplar que age como identificador para toda a espécie. Ele deve mostrar os atributos-chave que ajudam a identificar a espécie e marcá-la como única e nova. Um taxonomista também deve identificar uma série de parátipos, espécimes relacionados que mostram atributos adicionais (como modelos de cores diferentes, jovens, ou um macho, se o holótipo for fêmea), pois isto também ajuda a identificar a espécie. Estes espécimes precisam ser guardados em museus (usualmente, apesar de haver exceções), onde podem ser acessados por outros pesquisadores e serão mantidos nas condições apropriadas para assegurar-se sua preservação para a posteridade. Os museus naturalmente têm grande importância para holótipos e parátipos, e grandes coleções como as do Smithsonian ou do Natural History Museum de Londres podem ter centenas de holótipos. Isto os torna vitais para a biologia como um campo, já que os holótipos auxiliam a definir espécies.

Segundo, uma descrição da nova espécie é exigida. Ela deve ser definida: quais aspectos (comportamentais, anatômicos, genéticos) a determinam como sendo única e nova, e como ela pode ser distinguida de parentes próximos. Detalhes sobre a origem do holótipo e dos parátipos também devem ser dados: como, onde e quando foram coletados? Em que tipo de ambiente (no caso de fósseis, o tipo de rocha)? Esta é a parte na qual as coisas podem enguiçar – claramente, algumas coisas são um tanto subjetivas (seriam estas características suficientes para distinguir duas espécies, ou não?), mas muitos aspectos estão bem estabelecidos e são usados, enquanto outros devem ser evitados. Sabemos, por exemplo, que a cor é extremamente variável em diversas espécies, e que alguns tipos de cores ocasionais são recorrentes (como todas as formas pretas e albinas); então, usar isto para ajudar a definir uma espécie é uma má ideia, mas algo mais consistente e menos variável (como o número de vértebras ou de dedos) provavelmente dará uma boa definição.

Então, precisa-se de um novo nome. As espécies são sempre identificadas tanto pelo nome genérico quanto pelo nome de espécie quando escrito. Em Homo sapiensHomo é o gênero e sapiens é a espécie. Se uma nova espécie estiver sendo nomeada, precisará ser identificado o gênero ao qual pertence e por que razão, e aí o nome de espécie pode ser inserido. Nomes de espécie podem ser repetidos entre gêneros (então vários gêneros têm uma espécie nomeada de ‘magnus‘ para grande, ou ‘annectens’ para diferente, etc.), mas os gêneros precisam ser únicos. Observe que frequentemente a mídia relata a nomeação de uma nova espécie, quando, na verdade, um novo gênero está sendo criado. É possível que uma nova espécie esteja sendo dirigida a este gênero, mas também pode ser que uma espécie está sendo tirada de um gênero e colocada em seu próprio gênero. Isso não muda a espécie em nada, tal como modificar o número da placa do seu carro não altera o carro. Simplesmente muda-se a maneira como a identificamos e denota-se o que pensamos que ela seja. Por uma peculiaridade histórica, os animais estão em um sistema de nomeação, enquanto plantas, fungos e bactérias estão em outro, e nomes genéricos podem ser duplicados entre eles, tal que há alguns animais com os mesmos nomes de plantas. No entanto, é obviamente difícil confundi-los e estas duplicatas são bem raras.

Finalmente, a descrição e os dados devem ser publicados de forma que seja internacionalmente acessível e arquivada em diversas localidades. Até recentemente, isto significava levar artigos ao público especializado ou a bibliotecas acadêmicas em vários países, porém, agora a publicação eletrônica de nomes é permitida e torna o processo mais ágil e prático […].

[…] Entretanto, existem convenções e enormes livros de regras para governar a criação e o gerenciamento de nomes. Este é um conjunto complexo e desajeitado de instruções, mas existe para dar estabilidade e reduzir a confusão. Como disse antes, toda a biologia depende em última instância da taxonomia, então, evitar mexer em nomes sem necessidade ou incorretamente é um grave problema, sendo que assegurar que o sistema pode prosseguir e que funciona é um empreendimento fundamental, razão pela qual os nomes são levados tão a sério. Chamar o Apatosaurus pelo nome desatualizado de ‘Brontosaurus‘ não é só uma excentricidade inofensiva, mas confunde o que a espécie (neste caso, gênero) é e o que o nome representa e, portanto, é levado a sério já que a persistência de um nome incorreto não é trivial, mas fundamental para como vemos os organismos e seu lugar na árvore evolucionária da vida.

A aparição de uma nova espécie é bem simples em princípio, e o procedimento pode ser prático e rápido. Algumas linhas de texto da maneira adequada podem ser o bastante (se forem publicadas), mas apesar de ser comum, não pode ser frívolo. Uma consideração criteriosa das características disponíveis, dos dados disponíveis para as populações, suas distribuições e seu histórico evolucionário é levada em conta, e o máximo possível de comparações detalhadas deve ser feito entre espécies próximas para que se tenha certeza de que não se trata de um mutante. A boa taxonomia leva anos de experiência e familiaridade com o grupo em questão, e meses de trabalho podem resultar em algumas linhas de texto que anunciam a identificação de uma nova forma de vida. “Dar à luz” uma nova espécie é um belo evento e estou orgulhoso por ter contribuído com vários novos gêneros e espécies, fazendo disso uma chamada da vida na Terra (bom, na vida passada, no caso dos fósseis).

Por Dave Hone.
Fonte: The Guardian

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This entry was posted on 21 de Junho de 2013 by in Biologia and tagged , , , , , , , , , , .

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