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Por que os dinossauros desenvolveram penas?

Aves e penas são sinônimos hoje, mas o que provocou sua evolução? Foto: Rodrigo Buendia/AFP/Getty Images.

Aves e penas são sinônimos hoje, mas o que provocou sua evolução? Foto: Rodrigo Buendia/AFP/Getty Images.

Os criacionistas costumam usar uma pergunta falaciosa, supostamente sem resposta: “Para que serve a metade de uma asa?” Tal questão mais demonstra ignorância em relação à teoria da evolução do que preocupa os cientistas, mas uma outra questão tem despertado interesse de verdade: para que serve uma pena em um pássaro que não voa?

A resposta exata ainda não temos, apesar de sabermos que as primeiras penas fibrosas surgiram bem antes das aves em espécies que sequer tinham esperança de voar. É mais provável que se trate de uma junção de fatores simultâneos, ou de fatores que se sobrepuseram uns em relação aos outros ao longo do tempo. Fazer um arranjo desses fatores é complicado, porém, para alguns tipos de penas de certos grupos animais, a resposta já é convincente.

Há diversas coisas que as penas podem oferecer aos animais além do voo. Se observarmos os pássaros veremos algumas possibilidades, muitas das quais poderiam ser aplicadas também aos dinossauros que as precederam o voo como o conhecemos. As que serão descritas a seguir demonstram de que maneiras a seleção natural pode ter agido sobre as penas e as levado a se espalhar e desenvolver nas várias espécies de dinossauros que as possuíam.

Regulação de temperatura. As aves tipicamente mantém uma temperatura corporal alta, e mantê-la assim requer alguma forma de isolamento. Embora seja o estado fisiológico de muitos dinossauros seja incerto, pelo menos alguns tinham metabolismos compatíveis com os das aves, e mesmo os que não tinham poderiam se aproveitar do isolamento térmico, além de poderem utilizar as penas para isolar os ovos e os ninhos. As penas também proporcionam sombra para ovos e filhotes, e é bem possível que ajudassem na refrigeração dissipando calor, já que as barbas da pena (filamentos que a compõem e que começam no raque, eixo principal) recebem sangue e o trazem para a superfície do animal.

Cores e padrões. Só se fazem escamas de um determinado tamanho, e parece haver limites para seus padrões e tipos de coloração. Por outro lado, as penas podem ser gigantescas mesmo se comparadas proporcionalmente ao corpo de um animal pequeno, e a escala de cores e padrões parece exceder o que pode ser feito com escamas. Certamente algumas estruturas e formas possíveis para as penas não o são para as escamas, e o modo como as primeiras se abanam e se dobram é uma clara vantagem em relação às cristas ósseas ou longas escamas, também sendo provavelmente mais leves que as demais opções.

Renovação. A habilidade de renovar as penas pode ter sido muito útil – pode-se mudar a cor durante os períodos do ano (camuflar-se no inverno, colorir-se no verão), o que é possível com as cores da pele, porém não tão facilmente. Ainda, pode-se mudar o tipo de pena, tirando penas grandes quando não são necessárias e trocando-as por menores com beiradas ásperas para ajudar a quebrar cascas, etc., o que também teria sido uma vantagem.

Defesa. Ao menos um dinossauro teria usado suas penas para se defender, e isso pode ter se tornado uma estratégia viável para outros. Cerdas eriçadas do animal podem tê-lo tornado mais difícil de ser atacado ou comido e podem ter dado a ele uma defesa útil contra alguns predadores e parasitas (e talvez os deixando mais vulneráveis a outros parasitas como pulgas).

“Cílios” de um calau. Na verdade, são pequenas penas semelhantes a pelos.

Outros usos. Algumas aves usam as penas por razões que são perfeitamente plausíveis entre os dinossauros. Muitas tem penas que parecem pelos funcionando como cílios para manter os olhos livres de poeira, outras usam penas como um aparato sensorial como o bigode dos mamíferos. Aves aquáticas obviamente conseguem boiar graças ao ar preso nas penas o que, apesar de ser um uso improvável, é possível pois a maioria dos dinossauros passava um bom tempo dentro ou ao redor da água. Finalmente, algumas aves o deserto usam as penas para acumular água, possibilitando o resfriamento de ovos e uma bebida para os filhotes.

Ademais, outros benefícios poem ser extraídos das penas por animais que não podem realmente voar. Penas longas nos braços podem ter auxiliado no equilíbrio enquanto corriam ou escalavam, e quem já viu um avestruz correr sabe que eles usam as asas para ajudar a fazer curvas fechadas. Os precursores do voo moderno possivelmente extraíam das penas alguma forma de sustentação para planar ou cair de forma controlada, já que as penas produzem uma grande área de superfície carregando pouca massa.

Qualquer uma ou todas as razões acima podem ter sido úteis aos antepassados das aves. Mesmo um punhado de pequenas penas devem ter auxiliado na manutenção do calor, ou permitido uma nova coloração que servisse de sinal aos parceiros no acasalamento, etc., então estas pequenas vantagens seriam expostas com o crescimento das penas e a diversificação e complexidade das formas que cobrem o animal. Metade de uma asa seria muito útil de diversas formas, já que não no voo. Mas tal argumento reside na suposição incorreta de que as penas teriam evoluído somente para o voo e que só poderiam ser utilizadas nele. Não funciona assim hoje, e não há razões para crermos que um dia tenha funcionado. Pelo contrário, o uso mudou no tempo em resposta a inovações evolucionárias (como as barbas das penas) e pressões seletivas, e felizmente vemos evidências disso nas próprias penas, que são o marco das aves no muno moderno, mas que 100 milhões de anos atrás eram utilizadas por uma vasta gama de dinossauros de inúmeras formas, mesmo que não para voar.

Por Dave Hone.
Fonte: The Guardian
Mais de Dave Hone: Traduzindo: “How a new species is named”

 

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One comment on “Por que os dinossauros desenvolveram penas?

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This entry was posted on 24 de Junho de 2013 by in Biologia, Paleontologia and tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , .

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