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Especial: Epistemologia, o Estudo do Conhecimento

Sejam bem-vindos a mais um especial trazido pelo blog! O tema deste artigo é a Epistemologia, o Estudo do Conhecimento, ramo da filosofia que estuda o modo como determinamos o que é conhecimento e como chegamos a ele.

O tema é de real importância para a Ciência em geral e para a dualidade razão x superstição, especificamente. Ciência e teologia são dois modelos epistemológicos, ou seja, ambos buscam auferir a verdade e evitar os erros na nossa compreensão do universo, mas de formas bastante distintas. Ao fundo de cada argumento teológico, por exemplo, encontra-se a fé. Por outro lado, a ciência se baseia na razão e observação. O texto é um pouco longo, mas espero que apreciem a leitura!

Introdução

O termo “epistemologia” vem da junção das palavras gregas “episteme”, que significa “conhecimento” e “logos”, que quer dizer “estudo de” ou “ciência de”.  O campo de estudo da epistemologia é a investigação da natureza (o que é?), fontes (como o alcançamos?) e validade do conhecimento (como justificamos e defendemos o conhecimento contra o ceticismo?).

O estudo do conhecimento é um dos aspectos fundamentais das investigações filosóficas. Qualquer alegação de conhecimento deve ser avaliada para que se determine sua constituição, ou não, em conhecimento. Tal avaliação requer que entendamos o que é o conhecimento.

A palavra “conhecimento” tende a ser usada por nós de várias maneiras. Quando dizemos “João conhece Maria”, nos referimos à familiaridade que há entre as duas pessoas; já quando dizemos “João sabe andar de bicicleta” nos referimos a outro tipo de conhecimento que toma a forma de habilidade ou destreza.

Entretanto, o conhecimento adota outro sentido enquanto campo de estudo da epistemologia. Se afirmarmos que “1 + 1 = 2”, ou que “cães são mamíferos”, incorremos no que se convenciona chamar de conhecimento proposicional, já que proposições podem ser verdadeiras ou falsas, ou seja, não expressam necessariamente um fato verídico. Daqui em diante, nosso foco estará no conhecimento proposicional.

Define-se o conhecimento tratado pela epistemologia como crença verdadeira justificada. A partir daí, tem-se que, para conhecer algo, alguém deve acreditar nele, a crença deve ser verdadeira e a razão desse alguém para acreditar deve ser satisfatória à luz de algum critério, pois não se pode alegar conhecer algo se a razão para acreditar for arbitrária ou aleatória. Cada uma das três partes da definição é condição necessária para o conhecimento, e o conjunto delas é condição suficiente. (Esta última alegação é rebatida por Gettier, abaixo.)

Na história da epistemologia existe um debate entre as escolas racionalista e empirista para decidir como o conhecimento é adquirido. Os racionalistas afirmam que a razão, através da matemática e da lógica, é responsável para que se chegue ao conhecimento – um modelo a priori. Para esta escola, as verdades necessárias para a obtenção do conhecimento vêm da intuição e inferência racionais. Por outro lado, a escola empirista prega que a experiência sensorial, auxiliada por instrumentos (microscópio e telescópio, por exemplo), quando necessário, e os experimentos são responsáveis por levar as pessoas ao conhecimento, ou seja, uma forma a posteriori.

Os exemplos de Gettier

Em 1963, Edmund Gettier publicou um artigo em que dá exemplos de como a definição de crença verdadeira justificada é falha. Nesses exemplos, um indivíduo tem uma crença verdadeira e justificada, mas os demais negariam que o indivíduo possui conhecimento, pois o acaso exerce influência sobre sua crença.

Em um desses exemplos, supõe-se que o relógio do campus (que costuma manter a hora sempre certa) parou de funcionar às 11:56 da noite anterior, e ainda não foi consertado. Então, a caminho da sua aula, exatamente 12 horas depois, o sujeito observa que o relógio marca 11:56 e crê nisso. A crença é verdadeira, já que, obviamente, são mesmo 11:56. Ainda, a crença é justificada, porque não há razão para duvidar que o relógio está funcionando, e o sujeito não pode ser culpado por basear suas crenças sobre o tempo naquilo que o relógio marca. Apesar disso, parece evidente que o sujeito não sabe que são 11:56, uma vez que, se ele tivesse olhado para o relógio um pouco antes ou um pouco depois, teria uma crença na hora errada.

Conclui-se que é possível que uma crença verdadeira justificada não conduza ao conhecimento. Apesar de haver justificativa, a crença foi influenciada pelo acaso e não se torna conhecimento. Isto ficou conhecido como “problema de Gettier”.

Para resolver o problema, podemos revisar nossa definição de conhecimento afirmando que, para ser conhecimento, uma crença precisa ser verdadeira e justificada e formada sem que se confie em falsas crenças. Ou seja, justificação, verdade e crença são condições necessárias, mas não suficientes para o conhecimento. Uma quarta condição, qual seja, a de que nenhuma crença falsa foi inserida no raciocínio que levou à outra crença, também é necessária.

No entanto, ainda é pouco. Se mudarmos o exemplo e o sujeito não tiver qualquer crença a respeito do estado atual do relógio, mas somente a crença de que o relógio normalmente marca a hora certa, esta segunda crença, verdadeira, seria suficiente para justificar a crença de que são 11:56. Ainda assim é evidente que a pessoa não sabe as horas.

Que tipo de condição poderia ser adicionado para arrumarmos uma definição correta de conhecimento? Já vimos que a proposição de que o relógio está funcionando é falsa e que o sujeito não sabe disso; se soubesse, a justificativa para a crença de que são 11:56 seria “frustrada”. Chamando esse último tipo de proposição de “frustrante”, podemos dizer que, para constituir conhecimento, uma crença deve ser verdadeira e justificada, e não deve haver qualquer “frustrante” para a justificativa desta crença.

Justificação: Internalismo e Externalismo

Se uma crença só se torna conhecimento quando passa pelo crivo da verdade e da justificação, o que é esta última?

Primeiramente, dizemos que a justificação diz respeito a como se forma uma crença. O grande objetivo do processo de formação de crenças é obter a verdade evitando o erro, e isto nos traz a noção de que a justificação é uma característica das crenças formuladas da melhor maneira possível para atingir-se o objetivo de obtenção da verdade. Também podemos pensar que o processo de formação de crenças é uma tentativa de estabelecer uma conexão entre a mente de quem crê e o mundo exterior; portanto, a condição de justificação é, de fato, uma avaliação do cumprimento – ou não – do objetivo em questão.

Nesse sentido, temos duas formas de construir a justificação: na mente do indivíduo ou em termos gerais.

A crença é um estado mental, e a formação de crenças, uma atividade mental. Decorre disso que , para sabermos se uma crença é justificada, devemos examinar o pensamento de quem a formulou. Eis o internalismo, para o qual os fatores relevantes na avaliação da formulação de crenças são os outros estados mentais do indivíduo – suas crenças sobre o mundo e os dados de que dispõe, por exemplo. De forma concisa: para ser justificada, uma crença precisa estar devidamente ancorada em outros estados mentais. Surgem aí questões relativas ao fundacionismo e coerentismo, que basicamente tratam do modo como uma crença se baseia em outras. Apesar de interessantes, não vou me ater a estas questões, e passarei ao exame do externalismo.

O externalismo sugere que o método do internalismo é inconsistente, já que fixar-se nas crenças internas à cabeça de um sujeito pouco nos diz sobre a relação destas crenças com a realidade exterior. Segundo esta corrente, para nos assegurarmos de que o conhecimento não inclui o acaso, precisamos considerar fatores além das outras crenças do indivíduo, tais como a fonte de uma crença: experiência sensorial, razão, testemunho, memória. Aqui, devemos especificar que sentido foi utilizado, quem deu o testemunho, quão distante é a memória, etc., de modo a indicar, para cada crença, o modo exato como se procedeu sua formação. Crenças justificadas são aquelas derivadas de fontes confiáveis para que haja uma clara conexão entre a mente e o mundo, novamente, objetivo da formação de crenças.

A extensão do conhecimento humano

Há várias formas pelas quais podemos adquirir conhecimento sobre algo. Na Ciência, por exemplo, a condução de experimentos leva ao conhecimento empírico. Porém, o conhecimento que usamos no cotidiano geralmente vem da percepção direta dos sentidos, já que vemos, ouvimos, sentimos cheiros, gostos e tocamos os objetos ao nosso redor. O que todo conhecimento tem em comum é a necessidade da razão. Dados coletados pelos cientistas são analisados antes de que seja tirada qualquer conclusão; nós mesmos fazemos inferências a respeito do que nossos sentidos nos dizem.  Além disso, qualquer conhecimento que esteja acima do campo empírico estará baseado exclusivamente na razão.

O Ceticismo

Para encerrar este especial, farei uma breve descrição do ceticismo. Trata-se de um desafio direto a reivindicações de conhecimento. Em geral, o ceticismo toma a forma de uma solicitação pela justificação do conhecimento que se afirma ter, em conjunto com um enunciado sobre as razões que motivam tal solicitação. Dessa forma, o ceticismo é importante filosoficamente.

Nossos sentidos podem nos trair, por exemplo, quando estamos sonhando ou não estamos em perfeito estado mental devido a algum tipo de instabilidade física ou psicológica. A razão pode nos ajudar a construir argumentos que nos levem daquilo que as coisas parecem ser a crenças justificadas de como realmente são. Entretanto, mesmo quando podemos confiar plenamente na nossa percepção, o ceticismo ainda resiste. Apenas sentimos uma pequena parte do universo em determinado momento, apesar de acharmos que conhecemos muito mais sobre o mundo do que estamos sentindo naquele momento. Segue-se que os sentidos, por si sós, não podem responder por este pensamento, e a razão os complementa, correspondendo ao total do que conhecemos.

Luiz Guilherme Trevisan Gomes, Make It Clear Brasil.

Fontes: Grayling, A. C. (1996). Epistemology. Bunnin et. al. (editores); The Blackwell Companion to Philosophy. Cambridge, Massachusetts: Blackwell Publishers Ltd. Traduzido por Paulo Ghiraldelli Jr.;

Truncellito, D. A. (2007). Epistemology. Internet Encyclopedia of Philosophy.

Ver também: Especial: David Hume, Milagres e o Pensamento Religioso.

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This entry was posted on 1 de Julho de 2013 by in Filosofia and tagged , , , , , , , , , , , .

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