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Traduzindo: “Pope John Paul II and the trouble with miracles”

O Papa João Paulo II e os problemas com milagres

A decisão da Igreja Católica de que o falecido pontífice curou uma mulher ilustra a diferença fundamental entre “evidência” na religião e “evidência” na ciência.

A costarriquenha Floribeth Mora explica como sofria de um aneurisma cerebral, e que os médicos lhe deram um mês de vida, quando ela foi inexplicavelmente curada em 1º de maio de 2011, data da beatificação do Papa João paulo II. O Vaticano decidiu que João Paulo II é responsável pelo milagre, o que abre o caminho para a sua santidade. (Enrique Martinez / Associated Press / July 4, 2013).

A costarriquenha Floribeth Mora explica como sofria de um aneurisma cerebral, e que os médicos lhe deram um mês de vida, quando ela foi inexplicavelmente curada em 1º de maio de 2011, data da beatificação do Papa João paulo II. O Vaticano decidiu que João Paulo II é responsável pelo milagre, o que abre o caminho para a sua santidade. (Enrique Martinez / Associated Press / July 4, 2013).

Por Lawrence M. Krauss*.

Nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o fato que tenta demonstrar.

—David Hume

Na última semana, o Vaticano anunciou que uma reunião de cardeais e bispos decretara que o falecido Papa João Paulo II foi responsável por um segundo milagre, e então o caminho estaria livre para a santidade.

A Congregação para as Causas dos Santos decidiu que ele curou uma mulher da Costa Rica em 2011 depois que uma comissão de médicos aparentemente afirmou que sua recuperação foi inexplicável.

Aí está o problema, é claro. Há diversos resultados médicos que não entendemos. A remissão espontânea do câncer, por exemplo, ocorre em uma confiável, porém pequena fração da população; nenhuma explicação imediata pode ser apresentada em uma base caso a caso.

Atribuir esta falta de entendimento à intercessão de um papa morto é um grande passo, e ilustra uma diferença fundamental entre “evidência” na religião e “evidência” na ciência.

O físico Richard Feynman apontou que, na ciência, quando temos uma ideia, tentamos provar que está errada bem como que está certa. Esta é uma característica essencial do ceticismo científico que nos ajuda a evitar a armadilha de interpretar coincidências acidentais como resultados significativos.

Em todo experimento ocorrem anomalias. Aceitamos tais aleatoriedades na ciência e testamos para ver se algum resultado novo proposto é estatisticamente significativo antes de começarmos a examiná-lo com cuidado para saber se estamos interpretando de maneira errada algo mundano como alguma coisa empolgante.

Se, por outro lado, alguém procura por “milagres testemunhais”, há uma boa chance de que irá encontrá-los. Isto porque este alguém está assumindo presunçosamente que milagres existam. Fundamentalmente, isto ignora o conselho de Hume, escrito há muito, reformulado por Carl Sagan um tanto depois de forma impactante: “Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”.

Outro exemplo de Sagan chega mais perto do alvo, talvez. Considere as aparições miraculosas da Virgem Maria que se afirma terem ocorrido em Lourdes, França, em 1858. Desde então, milhões de peregrinos visitaram Lourdes para se banharem nas águas e serem curados. A Igreja Católica mantém registros meticulosos sobre tais curas, e mais de 60, incluindo remissões de câncer, foram definidas como inexplicáveis e, portanto, miraculosas.

O problema, no entanto, é que quando se examinam as taxas de remissão espontânea, no total da população, de doenças como o câncer, a taxa é, na verdade, mais alta do que a relatada entre os peregrinos de Lourdes. (Sagan percebeu isso, mas outros também compararam registros médicos com os registros de Lourdes.) Assim, se você se banhar nas águas de Lourdes, aparentemente tem uma probabilidade menor de ser curado espontaneamente do que os que não o fizeram.

Entretanto, se você for um os fiéis e for a Lourdes, e depois sua doença entrar em remissão, não haverá como eu, ou qualquer um, possa convencê-lo de que foi apenas uma coincidência.

Se este fato o faz se sentir mais seguro, se ele o faz sentir que alguém está intercedendo por você, talvez não haja dano algum. No entanto, quando uma instituição importante como a Igreja Católica quer atribuir eventos de outra forma inexplicáveis a milagres, a credulidade é pressionada de tal modo que encoraja o ceticismo a respeito das suas demais alegações.

Finalmente, a aceitação de milagres — eventos nos quais as leis da natureza aparentemente foram quebradas — é um exemplo do argumento do “Deus das lacunas” que leva ao surgimento de tensões entre ciência e religião. Se eventos inexplicáveis são utilizados como evidência para Deus, o que acontece quando a ciência chega e propõe uma explicação natural? Quando a lacuna se vai, onde existe espaço para Deus?

*O físico Lawrence Krauss é diretor do Origins Project na Arizona State University. Seu livro mais recente é “A Universe from Nothing” [Um Universo a partir do Nada, em tradução livre].

Fonte: Los Angeles Times

Ver também: David Hume: “Especial: David Hume, Milagres e o Pensamento Religioso”;
“Deus das lacunas”: “Deuses das lacunas: extraterrestres e design inteligente”

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