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Especial: Como as espécies respondem ao aquecimento global?

Aves pequenas, de vida curta como o chapim-real podem sobreviver ao aquecimento global graças à sua habilidade de adaptação, de acordo com um novo estudo.

Aves pequenas, de vida curta como o chapim-real podem sobreviver ao aquecimento global graças à sua habilidade de adaptação, de acordo com um novo estudo.

Durante esta semana, duas matérias publicadas, uma no e! Science News, e outra no Los Angeles Times, abordaram o tema do poder de reação das espécies ao aquecimento global, mudança climática associada à atividade humana através do lançamento na atmosfera de gases de efeito estufa.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) nos alerta para a possibilidade de que a média da temperatura global sofra acréscimo de cerca de 4 graus Celsius até o fim o século. Partindo desta premissa, o ecólogo John J. Wiens (Universidade do Arizona) e o pesquisador assistente Ignacio Quintero (Universidade Yale) estimaram a taxa de evolução necessária para que as espécies sobrevivam à alteração climática.

Para tanto, utilizaram dados genéticos de 540 espécies dos vários ramos de vertebrados terrestres – anfíbios, repteis, aves e mamíferos -, analisaram a velocidade com que evoluíram para responder a mudanças climáticas no passado e então compararam estas taxas de evolução com a projeção do clima para 2100. Os dados genéticos incluíram a filogenia – uma árvore genealógica que mostra como as espécies se relacionam evolutivamente umas com as outras -, e revelaram há quanto tempo as espécies se separaram umas das outras. A partir daí, os pesquisadores combinaram as árvores evolucionárias com os ambientes climáticos onde cada espécie vive para estimar quão rápido é o surgimento de novas moradias entre as espécies.

“Basicamente, descobrimos o quanto as espécies mudaram no seu nicho climático em determinado grupo, e se soubermos a idade de uma espécie, podemos estimar a velocidade com que o nicho climático muda com o tempo”. Os autores também descobriram que espécies irmãs evoluíram para viver em outros ambientes “com uma diferença média de temperatura de somente 1 ou 2 graus Celsius durante um ou alguns milhões de anos”.

O estudo, publicado no periódico Ecology Letters, mostra que as espécies vertebradas terrestres parecem evoluir devagar demais para que se adaptem às novas condições, e que muitas delas estariam fadadas à extinção caso não consigam se aclimatar a outras regiões do planeta. Cada espécie vive bem em seu “nicho climático”, i.e., a união entre temperatura e precipitação na área onde vive. “Por exemplo, algumas espécies são encontradas apenas em áreas tropicais, outras apenas em áreas temperadas, no alto das montanhas e nos desertos”, explica Wiens.

Em média, as espécies se adaptam a diferentes configurações climáticas “em uma taxa de 1 grau Celsius por milhão de anos”. Portanto, segundo Wiens, o aumento da temperatura global proposto pelo PNUMA evidencia uma grande diferença entre as taxas que torna improvável que simplesmente evoluir seja uma opção para várias espécies sobreviverem. De acordo com os autores, na maior parte dos casos, as taxas de evolução deveriam ser até 10 mil vezes maiores.

No entanto, a reação das espécies ao aquecimento global não precisa ser evolucionária. Os seres vivos podem se aclimatar mudando de habitat, por exemplo, procurando zonas mais temperadas ou mais altas para fugir das temperaturas elevadas, o que pode evitar que ao menos parte a população de algumas espécies desapareça. Porém, ressalte-se que mudar de lugar nem sempre é possível, uma vez que as espécies dependem da interação com outras como no caso da oferta de alimento. Basta que o clima elimine espécies vegetais, por exemplo, para que certos herbívoros sofram, e assim por diante.

Já o estudo publicado no Los Angeles Times oferece uma visão um pouco mais otimista a respeito do futuro das espécies animais (otimista pelo menos para algumas delas). Segundo o autor Ben Sheldon, ornitólogo da Universidade Oxford, certos tipos de pequenas aves podem facilmente se adaptar mesmo às piores projeções do aquecimento global.

Este trabalho, publicado no PLOS Biology, propõe as mesmas duas formas de se lidar com a alteração climática que vimos na dissertação de Wiens e Quintero, quais sejam, evoluindo ou sendo versátil. Para que ocorra a primeira opção, são necessárias mudanças no genoma dentro de um curto período. A segunda opção, também conhecia como plasticidade fenotípica, indica um enquadramento. No caso de uma ave, significa mudar de aparência ou comportamento para fazer jus ao ambiente em alteração.

Para saber que mecanismos os pássaros vêm utilizando ao longo dos anos, os cientistas se aproveitaram do trabalho do ornitólogo David Lack com um tipo de ave chamado chapim-real. Lack começou a monitorar e a registrar a dinâmica a população destes pássaros perto de Oxford em 1960.

Os chapins-reais são especialmente bons para estudos porque seu comportamento está totalmente atrelado ao ambiente: eles põem os ovos para que eclodam quando sua presa, a lagarta da mariposa, é mais abundante. Já a as lagartas surgem quando as árvores florescem na primavera, fato que é afetado pela temperatura.

Com base nos dados de temperatura, da época do aparecimento das lagartas, da primeira vez em que as fêmeas põem os ovos e das mudanças na população de aves, os pesquisadores descobriram que, em média, os chapins-reais anteciparam a época de botar ovos em duas semanas desde que o estudo começou.

Algumas fêmeas se reproduziam apenas uma vez na vida, enquanto que várias outras o faziam em diversos anos. Estas últimas conseguiam ajustar a época de reprodução ano a ano de acordo com a temperatura. Sheldon e sua equipe deduziram que se trata de plasticidade fenotípica, ao invés de evolução rápida. Mas e quanto ao futuro? Vamos à projeção.

Os cientistas adicionaram os dados históricos populacionais a um modelo que simula a habilidade das aves a reagir à mudança climática, e rodaram o programa nos níveis baixo, médio e alto de cenários de emissão de gases estufa. O resultado, mesmo no nível alto, que acompanha temperaturas mais elevadas, foi de que os chapins-reais terão sua população estável até o fim deste século.

Ajustaram, então, o modelo para ver como aves de maior porte poderiam lidar com a mudança do clima, mas aí o resultado não foi nada alentador: algumas espécies não sobreviveriam. Por viverem mais tempo e demorarem mais a se reproduzir que as aves menores, não teriam tempo hábil para evoluir e estariam mais sujeitas à flexibilidade comportamental. O artigo do LA Times até brinca, dizendo que isto é uma má notícia para aves como condores, albatrozes e o residente mais popular da Vila Sésamo, Garibaldo.

Fontes: e! Science News;
Los Angeles Times

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2 comments on “Especial: Como as espécies respondem ao aquecimento global?

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