Make It Clear Brasil

Um apoio ao livre pensamento e a um entendimento do mundo baseado em evidências

Traduzindo: “Seeing” with the Ears. Can bats hear in colour?

“Ver” com os ouvidos. Os morcegos podem ouvir em cores?

Por Richard Dawkins.

Fótons viajam rápido em linhas retas e podem ser focados com enorme precisão. Isto dá a oportunidade de calcular informações altamente detalhadas e precisas sobre o mundo. Estamos familiarizados com isto, e damos por certo que nossos olhos e cérebros, em associação, nos permitem navegar em alta velocidade evitando obstáculos e acertar um alvo em movimento, como uma bola de tênis. Sentimos bastante diferença quando a escuridão nos faz tropeçar desamparados.Morcego

Porém, temos que sobreviver durante a metade escura do ciclo dia/noite, e hoje sabemos que nos morcegos evoluiu a capacidade de “enxergar” sem luz, usando seus ouvidos bem sintonizados o invés dos olhos (de fato, os morcegos mais especializados perderam quase que a totalidade dos seus olhos). Ecos de sons de alta intensidade não são tão bons quanto a luz focada, mas, com o processamento adequada no cérebro, permitem ao morcego voar em alta velocidade entre cabos esticados sem se machucar e a capturar insetos durante o voo, tudo na completa escuridão. As “baleias com dentes” desenvolveram a mesma habilidade de “ecolocalização” (especialmente desenvolvida nos golfinhos de água doce que nadam e caçam em águas turvas, onde ver é quase impossível), o mesmo caso de dois grupos distintos de aves que habitam cavernas.

Há muito tempo eu especulo que a resposta para a famosa questão filosófica “Como é ser um morcego?” possa ser “É o mesmo que ser uma ave insetívora veloz que caça visualmente, como um andorinha”. Quis dizer algo bem específico com isto. Quando animais visuais como andorinhas ou pessoas olham para o mundo, constroem um modelo de simulação no cérebro que é continuamente atualizado por dados recebidos pelos olhos, e que, por isso, carrega tamanha similaridade com o mundo exterior que nos permite a orientação através deste em perseguição a alvos em movimento. O extraordinário fenômeno das ilusões visuais é melhor interpretado sob a hipótese de que aquilo “no que olhamos” não é o próprio mundo real, mas nosso modelo interno dele.

Quando os ancestrais dos morcegos e golfinhos começaram a usar a ecolocalização, provavelmente há dezenas de milhões de anos, seus cérebros já continham um software de simulação sofisticado, sensivelmente talhado para fazer os cálculos matemáticos necessários para manobrar em alta velocidade. Ao invés de deixar o software visual original definhar pela desocupação, teria sido natural comandá-lo a serviço da nova habilidade, a ecolocalização. Tudo que era preciso era um novo módulo de “driver” (para seguir com a metáfora da computação) que permitisse aos ecos atualizar a simulação, e não a imagem da retina. Foi por esta razão que conjeturei que os morcegos “veem” com os ouvidos. A cena, como percebida por um morcego ecolocalizador, pode parecer bastante com a que uma andorinha vê, porque ambos, morcego e ave, estão empregando o mesmo tipo de modelo de simulação para fazer o mesmo tipo de tarefa.

Eu até me atrevi (por exemplo em “Desvendando o Arco-íris”) a pensar se os morcegos usam cores (quero dizer, a sensação subjetiva ou qualia que chamamos de vermelho, azul, verde, etc.) como rótulos para diferentes texturas ecoicas dos objetos: talvez “vermelho” para superfícies brilhantes e duras como abdomes de gafanhotos, “azul” para macias mariposas felpudas. “Vermelho” e “azul”, em todo caso, são apenas rótulos arbitrários para a luz de diferentes comprimentos de onda. Não há nada inerentemente “vermelho” em 700 nanômetros. Dado que o qualia das cores estava presente no cérebro e não era mais necessário como rótulo para comprimentos de onda da luz, por que não pô-lo para trabalhar novamente como rótulo, mas de outra coisa, qual seja, a textura ecoica?

Fiquei, então, intrigado por ler a estória inspiradora de Daniel Kish no Guardian de ontem [13 de julho]. Quando tinha um ano de idade, ele teve os dois olhos removidos cirurgicamente par salvá-lo de um agressivo câncer de olho. Desde que se lembra, ele tem feito barulhos de estalos com a língua, e os usado para se guiar no seu caminho. Mas só aos dez anos um amigo lhe disse que ele estava fazendo o mesmo que os morcegos: ecolocalização:

Cada superfície tem sua própria assinatura acústica –posso reconhecer uma árvore, por exemplo, porque o tronco produz um eco diferente do das folhas. A madeira dura reflete o som, enquanto as folhas o refletem e refratam, dispersando as ondas sonoras. Tudo ao meu redor se torna identificável com um estalo. Ele me dá uma imagem em 3D com profundidade, características e riqueza; ele traz a luz para as trevas. Frequentemente, posso encontrar o caminho para fora de um auditório mais rápido do que uma pessoa que enxerga, pois consigo identificar a saída. Se eu estiver em um lugar barulhento como um concerto, não me sinto nervoso – apenas aumento o volume e meu estalo atravessa o barulho. Estou bem familiarizado com este som e não fico envergonhado caso outras pessoas me ouçam.

Eu não tenho uma audição sobre-humana, apesar de que às vezes me chamam de Batman; só treinei meus ouvidos para entender os ecos. Qualquer um pode fazê-lo, com visão ou cego – não é engenharia aeroespacial. Se você segurar um livro diante de si e fizer o estalo, e então tirá-lo da frente e estalar, pode ouvir a diferença, tal como você sabe que está em uma sala vazia por conta do eco. Quando estava na faculdade, escrevi minha tese sobre a ecolocalização, e durante minha pesquisa tive que desconstruir conscientemente o modo como estava fazendo para entender o processo. Sei que existe um muro diante de mim, eu pensava, mas o que passava essa informação? Eu me dava tarefas e tentava ser mais rápido ao navegar por percursos com obstáculos.

Sua habilidade é tão surpreendente pra pessoas que enxergam, que elas o tratam como alguém mais deficiente do que ele realmente é:

… apesar de eu ter viajado por tudo o mundo com sucesso, quando estou em um aeroporto, sinto que os oficiais querem me colocar em uma cadeira de rodas, tomar meus documentos e deixar que eu me sinta impotente. A um amigo não permitiram que saísse do avião até que a “ajuda” chegasse, apesar de ele ter o recorde mundial de ciclismo com cegueira; ele era legal demais para causar um alvoroço, mas eu teria insistido.

Fiz da minha vida (http://www.worldaccessfortheblind.org) um trabalho para ensinar crianças cegas a potencializar sus habilidades usando a ecolocalização, que eu chamo de flashsonar. Quando você fica mais hábil, também estala mais sutil e naturalmente, como que piscando, então as pessoas ao seu redor não ficam cientes do que você está fazendo e você não fica estigmatizado por isso.

Ele até se ensinou a andar de bicicleta:

Agora posso trafegar por uma via movimentada ou fazer uma trilha na floresta. Nunca atingi um pedestre – ou uma árvore – porque não ando na calçada. Os carros são alvos de ecos excelentes, então posso facilmente evitá-los. Não diria que nunca tive um acidente, pois cada atividade tem seu elemento de risco.

Atravessar o tráfego do horário de pico não é meu sonho; só estou feliz porque posso, se quiser. É irônico – passo todo o meu tempo encorajando as pessoas cegas a ser participantes ativos na sociedade quando, na verdade, eu adoraria cair fora dela. Quando meu trabalho estiver concluído, você poderá me encontrar nas montanhas como um velho ermitão, tendo somente meus estalos como companhia.

Não é preciso supor que uma pessoa possa se tornar tão boa na ecolocalização quanto um morcego. Morcegos tiveram milhões de anos de evolução para aperfeiçoar suas habilidades e afinar o software do cérebro. Mais do que isso, os estalos que os morcegos usam são ultrassônicos – altos demais para os humanos ouvirem – e isto melhora muito a eficácia da ecolocalização por razões que os físicos compreendem bem. Engenheiros podem produzir instrumentos que emanam estalos ultrassônicos e instrumentos que transpõem o ultrassom para frequências audíveis. Eu mesmo doei um fone de ouvido experimental projetado por L. Kay, na Nova Zelândia, pra ser utilizado por pessoas cegas, e depois de apenas alguns minutos de prática fui capaz de ter um ideia rudimentar das imediações, apesar de vendado.

Eu adoraria saber se há alguma verdade na minha suposição de que os ecos tornam possível “ouvir cores”. O Daniel Kish ouve cores? Ele mesmo pode ser incapaz de responder à questão porque provavelmente perdeu sua visão cedo demais para se lembrar de como era. Mas ele também nos diz que outros possuem a mesma capacidade que ele. Se algum deles perdeu a visão quando era velho o bastante para se lembrar dela, deveríamos esperar pelo testemunho ocular (testemunho ouvido?) de que “ver com os ouvidos” realmente pode se tornar – com bastante prática – a mesma experiência subjetiva que ver com os olhos? E algum deles, de fato, “vê” em cores? Se o fizerem, parece um aposta segura que os morcegos também o façam. Se não o fizerem (o que me parece mais provável), isto não significa que os morcegos também não o façam: lembre-se uma vez mais que os morcegos tiveram milhões de anos em que perfeiçoaram o sistema de ecolocalização.

Leia a estória de Daniel Kish aqui:

http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2013/jul/13/experience-blindness-echolocation-daniel-kish?INTCMP=SRCH

Fonte: Richard Dawkins Foundation for Reason and Science

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This entry was posted on 15 de Julho de 2013 by in Biologia and tagged , , , , , , , , , , , , .

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