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O Livre-Arbítrio e a Realidade do Amor

Imagem de h.koppdelaney.

Imagem de h.koppdelaney.

Texto extraído do blog do neurocientista e escritor Sam Harris:

Muitos leitores continuam a manifestar confusão — e até raiva e angústia — a respeito da minha posição quanto ao livre-arbítrio. Alguns estão convencidos de que minha visão é auto-contraditória. Outros estão persuadidos da verdade dela mas acham a verdade frustrante. Eles dizem que, se rasgando a ilusão de livre-arbítrio minamos o ódio, devemos minar o amor também. Preocupam-se com um mundo no qual vemos a nós mesmos e às demais pessoas como robôs. Ouvi de leitores que sofrem de depressão clínica que a leitura do meu livro Free Will, ou dos artigos do meu blog sobre o tópico, apenas aprofundou seus problemas. Talvez haja mais a ser dito…

Primeiro, gostaria de dirigir-me à acusação comum de que é simplesmente auto-contraditório falar da ilusão do livre-arbítrio usando palavras como “escolha”, “intenção”, “decisão”, “deliberação” e “esforço”. Se o livre-arbítrio é uma ilusão, ao que parece, estas qualidades da mente devem ser ilusórias também. De certo modo, isso é correto. Talvez fosse mais preciso falar de “escolhas aparentes”. Mas a distinção geralmente não é relevante no nível da nossa experiência. Em termos de experiência, não há contradição entre verdade e aparência. Mesmo na ausência de livre-arbítrio, acho que posso falar de escolhas, intenções e esforços sem ser ambíguo.

Considere o momento presente do ponto de vista da minha mente consciente: eu decidi escrever este post e agora o estou escrevendo. Eu quase não o escrevi, no entanto. De fato, eu fiquei em dúvida a respeito dele: sinto que já falei mais ou menos tudo o que tinha para falar sobre o tópico do livre-arbítrio e agora me preocupo em não me repetir. Comecei o post e o deixei de lado. Porém, muitos outros e-mails chegaram e percebi que poderia esclarecer alguns pontos. Eu escolhi ser afetado dessa maneira? Não. Alguns leitores estavam me encorajando a comentar os acontecimentos deprimentes da “Primavera Árabe”. Outros queriam que eu escrevesse sobre a prática da meditação. No começo eu ignorei todas essas vozes e voltei a trabalhar no meu próximo livro. Por fim, entretanto, retornei a este post. Teria sido uma escolha? Bem, em um sentido convencional, sim. Mas minha experiência em fazer a escolha não incluiu o conhecimento das reais causas. Subjetivamente falando, é um completo mistério para mim o porquê de eu estar escrevendo isto.

O fluxo de meu trabalho pode soar um pouco incomum, mas minha experiência de escrever este artigo ilustra inteiramente minha visão sobre o livre-arbítrio. Pensamentos e intenções surgem; outros pensamentos e intenções surgem em oposição. Quero me sentar para escrever, mas então quero outra coisa — me exercitar, talvez. Qual impulso vencerá? Nesse instante ainda estou escrevendo e não há como eu saber por que — pois em outras oportunidades eu pensaria “Isto é inútil. Vou à academia”, e este pensamento seria definitivo; O que finalmente faz a balança oscilar? Eu não posso saber subjetivamente — mas posso ter certeza de que eventos eletroquímicos no meu cérebro decidem a questão. Sei que, dado o estímulo requisito (seja interno ou externo), saltarei da minha mesa e, de repente, me pegarei fazendo outra coisa. Pelo lado da experiência, portanto, eu não levo nenhum crédito pelo fato de ter chegado ao fim este parágrafo.

Porém, a aparente realidade de escolha permanece intacta. Não é errado dizer que eu decidi escrever este post — e certamente não é errado dizer que minha escrita precisa de algum esforço consciente. Não posso escrever por acidente, ou enquanto durmo. A própria escrita é claramente o produto de minha mente inconsciente — não posso saber, por exemplo, por que uma palavra ou pedaço de sintaxe vem e outro não — mas o projeto todo requer consciência para existir. Certas coisas não podem ser pensadas ou feitas a menos que sejam aquecidas pela luz da percepção consciente. Estou, apesar de tudo, escrevendo sobre o que é ser eu neste momento — e não seria nada ser eu sem consciência.

O que muita gente parece não entender é o lado positivo dessas verdades. Ver através da ilusão do livre-arbítrio não extingue a realidade do amor, por exemplo — porque amar outras pessoas não é uma questão de fixar-se às causas ocultas do comportamento delas. Ao invés disso, é uma questão de importar-se com elas enquanto pessoas e aproveitar sua companhia. Queremos que aqueles que amamos sejam felizes, e queremos nos sentir da forma como nos sentimos na presença deles. A diferença entre a felicidade e o sofrimento não depende do livre-arbítrio — de fato, não existe relação lógica entre eles (mas então, não existe em nada, porque a própria ideia de livre-arbítrio não faz sentido). No amor para com os outros, e na busca de felicidade para nós mesmos, estamos preocupados principalmente com o caráter da experiência consciente.

O ódio, no entanto, é governado poderosamente pela ilusão de que aqueles que odiamos podem (e devem) se comportar diferentemente. Não odiamos as tempestades, avalanches, mosquitos ou gripe. Podemos usar o termo “ódio” para descrever nossa aversão ao sofrimento que essas coisas nos causam — mas estamos propensos a odiar outros seres humanos em um sentido bastante diferente. O verdadeiro ódio requer que vejamos nosso inimigo como o autor último de seus pensamentos e ações. O amor requer apenas que nos importemos com nossos amigos e que encontremos felicidade em companhia deles. Pode ser difícil enxergar essa verdade no começo, mas motivo a todos para que continuem procurando. Esta é uma das mais belas assimetrias que podemos encontrar.

Fonte: SamHarris.org

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2 comments on “O Livre-Arbítrio e a Realidade do Amor

  1. limaluizmatos
    2 de Agosto de 2013

    Existem certos estágios de inspiração que leva o ser humano á criar raciocínios contrários á lógica e á razão, compreensíveis sómente á eles e aqueles que já experimentaram esse ciclo…

    • Make It Clear Br
      2 de Agosto de 2013

      Todo estágio de inspiração é fomentado por eventos eletroquímicos no cérebro, cabendo à natureza toda expressão de pensamento, moral e desejo humanos. Sendo naturais, tais eventos podem (e devem) ser estudados à luz da razão e da lógica, embora saibamos pouco ou nada sobre o processo de formação do pensamento no nosso cérebro.

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This entry was posted on 2 de Agosto de 2013 by in Filosofia and tagged , , , , , , , .

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