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Traduzindo: This Is How Your Brain Becomes Addicted to Caffeine

É assim que seu cérebro fica viciado em cafeína

Por Joseph Stromberg

O uso regular de cafeína altera a composição química do seu cérebro, levando à fadiga, enxaquecas e náusea se você tentar parar. Foto por jamesjoel - Flickr.

O uso regular de cafeína altera a composição química do seu cérebro, levando à fadiga, enxaquecas e náusea se você tentar parar. Foto por jamesjoel – Flickr.

Dentro das 24 horas depois de largar a droga, seus sintomas de abstinência começam. Inicialmente, são sutis: a primeira coisa que você nota é que se sente confuso e carece de lucidez. Seus músculos estão fatigados, mesmo que você não tenha feito nada desgastante, e você suspeita estar mais irritável que de costume.

Com o tempo, uma inconfundível enxaqueca latejante começa, tornando difícil se concentrar em qualquer coisa. Finalmente, como seu corpo protesta por ter a droga tirada dele, você ainda pode sentir leves dores musculares, náusea e outros sintomas como os da gripe.

Não é abstinência de heroína, tabaco ou mesmo álcool. Estamos falando de largar a cafeína, uma substância tão amplamente consumida (o FDA* reporta que mais de 80 por cento dos adultos americanos bebem-na diariamente) e em cenários tão mundanos (por exemplo, em uma reunião de trabalho ou no seu carro), que frequentemente esquecemos que ela é uma droga — e, de longe, a mais popular psicoativa do mundo.

Como várias drogas, a cafeína é quimicamente viciante, fato que os cientistas reconheceram em 1994. No último mês de Maio, com a publicação da 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM**), a abstinência de cafeína foi finalmente incluída como transtorno mental — apesar de os méritos pela sua inclusão serem sintomas que consumidores regulares de café conhecem bem das vezes em que ficaram sem este por um ou mais dias.

Por que, exatamente, a cafeína vicia? A razão deriva do modo como a droga afeta o cérebro humano, produzindo o estado de alerta que os bebedores de cafeína anseiam.

Logo depois de você beber (ou comer) algo contendo cafeína, ela é absorvida pelo intestino delgado e dissolvida na corrente sanguínea. Já que o produto químico é solúvel em água e gordura (o que quer dizer que pode ser diluído em soluções à base de água — como o sangue — e em substâncias à base de gordura, como nossas membranas celulares), ele é capaz de penetrar a barreira hematoencefálica e entrar no cérebro.

Estruturalmente, a cafeína lembra bastante uma molécula que está naturalmente presente no nosso cérebro, chamada adenosina (que é subproduto de vários processo celulares, incluindo a respiração celular) — lembra tanto que, na verdade, a cafeína pode se encaixar de forma organizada nas células receptoras de adenosina do nosso cérebro, efetivamente bloqueando-as. Normalmente, a adenosina produzida com o tempo se prende a esses receptores e produz uma sensação de cansaço.

A estrutura da cafeína lembra a da adenosina o bastante para se encaixar nos receptores de adenosina do cérebro. Imagem: Wikimedia Commons.

Quando as moléculas de cafeína estão bloqueando esses receptores, previnem que isso ocorra, gerando, assim, um sentimento de alerta e energia por algumas horas. Adicionalmente, alguns dos estimulantes naturais do próprio cérebro (como a dopamina) funcionam com mais eficácia quando os receptores de adenosina estão bloqueados, e toda a adenosina excedente vagando no cérebro leva as glândulas suprarrenais a secretar adrenalina, outro estimulante.

Por esta razão, a cafeína não é tecnicamente um estimulante por si própria, diz Stephen R. Braun, autor de Buzzed: the Science and Lore of Caffeine and Alcohol, mas um facilitador de estimulantes: uma substância que deixa nossos estimulantes naturais livres. Ingerir cafeína, escreve ele, é semelhante a “colocar um bloco de madeira sob um dos pedais de freio principais do cérebro”. Este bloco fica no lugar de quatro a seis horas, dependendo da idade da pessoa, tamanho e outros fatores, até que a cafeína seja metabolizada pelo corpo.

Nas pessoas que tiram vantagem desse processo diariamente (por exemplo, viciados em café/chá, refrigerante ou energéticos), as características químicas e físicas do cérebro realmente mudam como resultado. A mudança mais notável é a de que as células cerebrais desenvolvem mais receptores de adenosina, o que é a tentativa do cérebro de manter o equilíbrio face ao constante ataque da cafeína, com seus receptores de adenosina tão regularmente bloqueados (estudos indicam que o cérebro também responde reduzindo o número de receptores de noradrenalina, um estimulante). Isto explica o porquê de os bebedores regulares de café criarem uma tolerância com o tempo — pois se se tem mais receptores de adenosina, precisa-se de mais cafeína para bloquear uma fração significativa deles e ativar o efeito desejado.

Isto também explica por que largar totalmente a cafeína de uma vez pode engatilhar uma série de efeitos de abstinência. A química subjacente é complexa e não plenamente entendida, mas o princípio é o de que seu cérebro está acostumado a operar em um conjunto de condições (com um número artificialmente inflado de receptores de adenosina, e um número diminuído de receptores de noradrenalina) que depende da ingestão regular de cafeína. De repente, sem a droga, a química alterada do cérebro causa todo tipo de problema, inclusive a aterrorizante enxaqueca da abstinência.

A boa notícia é que, comparados aos do vício em diversas drogas, os efeitos são de relativo curto-prazo. Para se livrar dessa coisa você só precisa suportar de 7 a 12 dias de sintomas sem tomar nenhuma cafeína. Durante esse período, seu cérebro vai reduzir naturalmente os receptores de adenosina em cada célula, em resposta à súbita ausência de ingestão de cafeína. Se você puder chegar a tanto sem uma xícara de café ou de chá, os níveis de receptores de adenosina no seu cérebro retornam ao padrão, e seu vício estará quebrado.

Fonte: Smithsonian

*FDA: Food and Drug Administration. Órgão do governo dos Estados Unidos responsável pelo controle dos alimentos, suplementos alimentares, medicamentos e outros.
**DSM: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. Manual para profissionais da área da saúde mental que lista diferentes categorias de transtornos mentais e critérios para diagnosticá-los, de acordo com a Associação Americana de Psiquiatria.

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This entry was posted on 13 de Agosto de 2013 by in Medicina and tagged , , , , , , .

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