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Entendendo o uivar dos lobos

Foto: Walter Vorbeck.

Foto: Walter Vorbeck.

A zoologia e, em particular, a etologia, avançaram no sentido de elucidar um dos grandes mistérios do reino animal: por que os lobos uivam? Por enquanto, não se sabe ao certo nem mesmo se o uivo é voluntário ou alguma forma de reflexo. Porém, uma equipe de pesquisadores da Áustria tratou de estudar este comportamento observando lobos cinzentos e nos têm algo a dizer.

Décadas atrás, biólogos sugeriram que o uivo fosse uma forma de reagrupar os lobos quando estivessem separados por conta de uma caçada, por exemplo. Outros estudiosos observaram que o padrão dos uivos se alterava conforme o tamanho do grupo e a presença (ou ausência) do macho dominante, indicando que o comportamento não é puramente automático.

A etóloga cognitiva Friederike Range, da Universidade de Medicina Veterinária em Viena, criou nove lobos em parceria com sua equipe no centro de pesquisas que dirige. Ela conta que começou a levar os animais para caminhadas quando eles tinham 6 meses de idade e que, assim que ela saía com um deles, os demais começavam a uivar, fato que chamou a atenção dela para o estudo dos uivos.

Range e seus colegas dividiram os lobos em dois grupos. Determinaram a posição de cada lobo na hierarquia de dominância do seu grupo e as relações sociais entre os animais. Por exemplo, um animal tem parceiros prediletos com quem brinca e de quem fica próximo enquanto dorme, segundo Range. Então, cada lobo foi levado para três caminhadas de 45 minutos durante algumas semanas, sendo que os que saíam eram escolhidos aleatoriamente para que os outros não descobrissem quem seria o próximo.

Uma situação controle foi montada e consistia em deixar cada lobo — novamente, três vezes por 45 minutos — em uma área adjacente à ocupada pelos demais, de modo que o lobo separado não poderia ser visto, mas, por estar em um local familiar, não haveria razão para que os animais tentassem se comunicar.

A pesquisadora relata que em quase todos os casos, o grupo começou a uivar nos primeiros 20 minutos de ausência de um dos membros, que foi caminhar. Este, no entanto, geralmente não respondeu ao chamado. Ao todo, o grupo uivou em 26 dos 27 experimentos com caminhada e em apenas 2 dos experimentos controle, nos quais um dos animais apenas não era visto pelos demais mas continuava por perto.

Ao analisar precisamente quais lobos estavam uivando, a equipe que conduziu o experimento percebeu que a maior parte da “cantoria” se dava quando o membro dominante havia saído para caminhar. Ainda, um lobo uivava mais quando o animal retirado do grupo era seu companheiro favorito. Este último fato significa que não existe um “comportamento de manada”, no qual um animal uivaria somente porque os outros o estariam fazendo. “As relações sociais são muito importantes para eles, e os padrões de uivos refletem isso”, disse Range.

Isto fica ainda mais evidente se considerarmos a análise da saliva dos animais coletada 20 minutos após cada experimento. Imaginando que a reação dos animais fosse causada pelo estresse da separação, os cientistas avaliaram a quantidade de cortisol, hormônio do estresse, em cada lobo. Os níveis de cortisol atingiam picos quando o membro dominante saía para dar uma volta, mas não quando o parceiro preferido saía, apesar da grande quantidade de uivos no último caso. A conclusão foi a de que uivar não é só uma reação fisiológica ao estresse, mas uma estratégia: “Eles estão tentando contatar indivíduos que lhes são importantes e refazer o grupo. E eles têm certo controle sobre o quanto uivam”, afirmou Range.

Portanto, Dave Mech, biólogo que propôs a noção de que os lobos uivam para se reagruparem depois de uma caçada, sugere que o estudo “fornece a primeira evidência experimental… de que a principal razão [para uivar] é ajudar o grupo a se reunir”. O biólogo testemunhou esse tipo de acontecimento observando o comportamento de lobos selvagens.

Já outros especialistas em vida selvagem alertam para uma “perigosa” extrapolação das conclusões obtidas com animais em cativeiro para os lobos selvagens. Para eles, o motivo do uivo pode ser diferente em situações nas quais os animais podem farejar livremente os rastros dos demais e, além disso, outro hormônios que não o cortisol podem interferir no comportamento.

Fonte: Science

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This entry was posted on 22 de Agosto de 2013 by in Biologia and tagged , , , , , .

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