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Steven Pinker e o senso moral

“O ponto de partida é distinguir a moralidade em si, enquanto tópico da filosofia (em particular a ética normativa), do sentimento humano, um tópico da psicologia. A não ser no caso de algum relativista moral radical, acredita-se que as pessoas podem em algum sentido estar erradas em suas convicções morais; que suas justificativas para genocídios, estupros, crimes de honra e tortura de hereges são erradas, não apenas contrárias à nossa sensibilidade. Quer alguém seja um realista moral e acredite que as verdades morais etão objetivamente fora de questão, como as verdades matemáticas, quer simplesmente admita que as afirmações morais têm certo grau de poder em termos de harmonia com convicções universalmente admitidas ou com a melhor compreensão que advém de nossa deliberação racional coletiva, o fato é que se pode diferenciar as questões da moralidade das questões da psicologia moral. Esta última diz respeito a processos mentais que as pessoas sentem como morais, e pode ser estudada tanto no laboratório como em campo, tal e qual outra faculdade cognitiva ou emocional.

O próximo passo no entendimento do senso moral é reconhecer que ele representa um modo distinto de se pensar uma ação, não simplesmente a abstenção de uma ação. Existem distinções psicológicas importantes entre abster-se de uma ação porque ela é considerada ilegal (“Matar é errado”) e abster-se porque ela é meramente desagradável (“Detesto couve-flor”), fora de moda (“Calças boca de sino estão por fora”) ou imprudente (“Não coce picadas de mosquito”).

Uma diferença é que a desaprovação de um ato moralizado é universalizada. Se você acha couve-flor ruim, que outra pessoa ache bom não é problema seu. Mas se você julga que assassinato, tortura e estupro são imorais, então você não pode simplesmente abster-se de empreender esses atos e ser indiferente ao fato de outras pessoas os cometerem. Você tem de desaprovar que qualquer um os cometa.

Segundo, convicções moralizantes são acionáveis. Mesmo que as pessoas não apliquem a máxima de Sócrates — ‘Conhecer o bem é fazer o bem’ —, elas tacitamente aspiram a isso. Elas encaram as ações morais como objetivos intrinsecamente meritórios, que dispensam motivos suplementares. Se alguém acredita que assassinato é imoral, não precisará ser remunerado, ou sequer estimado, por abster-se de matar alguém. Quando as pessoas quebram um preceito moral, racionalizam a falha invocando algum preceito compensatório, achando uma desculpa ou reconhecendo que aquilo foi uma lamentável fraqueza pessoal. Afora os demônios e os vilões da ficção, ninguém diz: ‘Eu acredito que o assassinato é uma atrocidade odiosa e o pratico sempre que me convém’.

Por fim, as infrações moralizadas são passíveis de punição. Se alguém crê que assassinar é errado, não apenas se considera no direito de ver um assassino punido, mas sente-se obrigado a fazer com que isso ocorra. Não se pode, por assim dizer, deixar para lá em caso de assassinato. Agora coloque, no lugar de “assassinato”, “idolatria”, “homossexualidade”, “blasfêmia”, “subversão”, “indecência” ou “insubordinação” e você verá como o senso moral humano pode ser uma grande força maléfica.”

PINKER, Steven. Os anjos bons da nossa natureza: Por que a violência diminuiu. 1a. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, Cap. 9, pp 832-833.

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This entry was posted on 13 de Setembro de 2013 by in Psicologia and tagged , , , .

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