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Traduzindo: Bullied for Not Believing in God

Apesar de o secularismo e o ateísmo estarem em crescimento, alguns estudantes não religiosos se sentem discriminados — por vezes, violentamente. Agora, professores dos Estados Unidos estão criando Secular Safe Zones [Zonas Seculares Seguras] para “acabar com bullying, discriminação e isolamento social anti-ateístas”.

Por James Hamblin 

SalvatoreLaporta/AP

SalvatoreLaporta/AP

Anteriormente neste ano, quando ninguém estava olhando, Gage Pulliam tirou uma foto de uma placa que enumerava os Dez Mandamentos, pendurada na parede da sala de biologia do seu colégio em Oklahoma.

Pulliam mandou a foto por e-mail, anonimamente, à Freedom From Religion Foundation [Fundação para a Liberdade da Religião]. Eles, então, enviaram uma queixa ao distrito escolar que pedia à Muldrow High School que retirasse a placa.

O sabor da justiça foi, por um momento, doce na língua ateia de Pulliam. Até estudantes protestarem. Mais tarde na semana, seus pares haviam compilado centenas de assinaturas em abaixo-assinados para salvar a placa dos Mandamentos. A Muldrow Ministerial Alliance [Aliança Ministerial de Muldrow] começou a entregar camisetas que mostravam os Dez Mandamentos em apoio ao protesto. Pais também entraram na briga. Danise Armer disse que retirar a placa era “ir longe demais… O que aconteceu com a liberdade de religião, e não da religião?”

Gage Pulliam

Os protestantes começaram a especular quem teria sido o responsável pela foto instigante. Sussurros especulativos se tornaram gritos. Quando alguns dos amigos de Pulliam — que estavam na coorte de estudantes abertamente não religiosos da Muldrow High — começaram a sentir o calor, Pulliam se expôs em um blog ateísta. Sacrificando a si mesmo para que pudesse poupar os outros, Pulliam admitiu ter sido ele quem mandara a foto.

Posteriormente, Pulliam disse que no encalço da sua confissão, sua mãe se preocupou com a sua segurança. Ela também ficou preocupada porque seus professores poderiam avaliá-lo diferentemente. Sua irmã, estudante da oitava série, disse que os outros alunos não olhavam para ela, e que “uma vez, ela não conseguiu realizar um trabalho de turma porque os membros do seu grupo se recusaram a falar com ela”. Outros estudantes “disseram à namorada de Gage que este deveria ficar longe deles, do contrário ele apanharia”.

A justificativa de Pulliam para tirar a foto, em primeiro lugar: “Quero que as pessoas saibam que não estou atacando a religião. Estou tentando criar um ambiente para as crianças no qual elas podem se sentir iguais”.

Você verá o símbolo e saberá

A Secular Student Alliance [Aliança Secular Estudantil] é um grupo de promoção educacional sem fins lucrativos. Ela possui 393 grupos estudantis afiliados em colégios e campi de faculdades nos Estados Unidos. Este número dobrou nos últimos quatro anos. Seu propósito estabelecido é o de “organizar e potencializar estudantes não religiosos” e “estimular grupos de base no campus que forneçam uma comunidade acessível para estudantes seculares discutirem suas visões e promoverem seus valores seculares”. Neste mês, eles lançaram um programa, principalmente em colegiais, destinado a combater situações como a de Pulliam, que eles dizer ser corriqueiras.

Tendências de afiliação por geração (em % da coorte de cada faixa etária que não está afiliada): Millennials mais jovens, Millennials mais velhos, Ger. X, Baby boomers, Ger. Silenciosa e Ger. Grandiosa. Pew Research Center

A iniciativa das Secular Safe Zones foi planejada para criar “locais seguros e neutros para que estudantes falem sobre suas dúvidas sem medo do bullying religioso”. Isto é feito recrutando-se “aliados” e os treinando para reconhecer e responder ao bullying anti-ateísta. A iniciativa foi baseada no programa LGBT Safe Zone [Zona LGBT Segura] da Gay Alliance [Aliança Gay], que teve início há alguns anos, pois ela permite aos mentores das escolas demarcar explicitamente espaços onde “os alunos sabem que o bullying não será tolerado”.

Membros do corpo docente da escola que se afilia ao programa não precisam dizer nada; eles penduram o emblema amarelo, verde, rosa e azul e os alunos vão até eles.

“É chocante a frequência com que as pessoas dizem aos estudante seculares que eles não têm lugar na América”, disse-me Jesse Galef, diretor de comunicações da SSA. “Algumas vezes há ameaças de violência contra alunos que se identificam abertamente como ateus… Estamos recorrendo a modelos de apoio nacionais que ajudem estes alunos”. Isso pode incluir “professores, orientadores, bibliotecários, promotores, até clérigos, que queiram criar locais seguros para as pessoas discutirem suas dúvidas e serem abertas quanto a suas identidades”.

A SSA oferece treinamento para os voluntários, incluindo módulos sobre como “identificar e compreender estudantes seculares e se declarar contra a discriminação”. A publicação-padrão Resource Guide for Allies [Guia de Recursos para Aliados] é uma leitura cativante que contém um monte de fatos interessantes sobre o secularismo, por exemplo, “Mitos Comuns Sobre Estudantes Seculares”:

  • Não teístas só estão com raiva de deus.
  • Não teístas adoram Satã.
  • Não teístas não têm moral.
  • O não teísmo é produto de uma tragédia pessoal.
  • Não teístas são arrogantes.
  • Nazistas eram ateus.
  • Não-teístas gostam demais de pecar para desistir disso.

Ela também define sucintamente subgrupos de secularismo (o ateísmo entre eles) e aconselha: “É importante abordar o estudante com questionamentos de maneira neutra. Enquanto aliados da Secular Safe Zone, não estamos aqui para incitar a religião ou o não teísmo”.

Tendo conhecimento disso, um aliado afixa seu emblema.

Isso é realmente necessário?

Uma pesquisa do Pew Research Center [Centro de Pesquisas Pew] descobriu que o número de millennials* que relatam dúvidas quanto à existência de Deus dobrou em cinco anos — está agora em torno de 31 por cento. Mais pessoas nos Estados Unidos se identificam como não religiosas do que em qualquer outra época nos últimos 30 anos; e esses números crescem gradualmente, em especial entre os jovens. Estaria o clima para “sair do armário” como ateu ainda muito hostil?

Crescimento dos não afiliados religiosamente por motivo de ateísmo, agnosticismo ou nenhum em particular. Pew Research Center

A SSA reconhece esses dados, mas Galef rebate com uma pesquisa da organização alemã sem fins lucrativos Bertelsmann Stiftung [Fundação Bertelsmann], que apurou que 50 por cento dos americanos consideram o ateísmo ameaçador. Como ele mesmo expressa, “[e]m uma sociedade que ainda é esmagadoramente religiosa — o ateísmo está em crescimento, mas a vasta maioria dos americanos ainda é religiosa — isto põe uma tinta religiosa em tudo. As pessoas ainda assumem que todos sejam religiosos, ou que se você não é, não se trata de uma boa pessoa. É aí que muito do bullying começa”.

A estória de Pulliam, em Oklahoma, é repetida por casos no noticiário como o de Jessica Ahlquist, em Rhode Island — uma estudante do ensino médio que desafiou um pôster de orações na sua escola e foi posteriormente chamada de “coisinha do mal” pelo congressista de seu estado — e o de Damon Fowler, na Louisiana, que fez a escola cancelar planos para uma prece na sua cerimônia de formatura e foi expulso de casa pelos pais.

“Certas vezes o bullying é ativo e intencional”, diz Galef, “mas muitas vezes são suposições passivas de que ateus são maus ou imorais. E essas suposições são filtradas no seu linguajar de modos ofensivos”.

Galef compartilhou comigo parte do feedback anônimo sobre discriminação que ele recebeu de alguns grupos afiliados à SSA por todo o país.

Apesar de a maior parte do nosso campus ser respeitosa, as pessoas ficam habitualmente chocadas ao descobrir que somos ateus. Quando formamos o grupo, eu recebi ameaças de morte por e-mail e a típica retórica ‘vocês vão para o inferno’.

Tivemos nossos folhetos rasgados e desfigurados regularmente. Além disso, vimos cristãos frequentando os encontros para nos dizer que vamos para o inferno, que precisamos de Jesus, que estamos procurando a verdade e eles estão lá para dá-la, etc. Finalmente, tivemos que retirá-los e quase tivemos que acionar a segurança pública porque todos estavam muito desconfortáveis. Ainda, quase todos os membros de nosso grupo foram atormentados por parentes, ‘amigos’ e outros no nível pessoal.

Nossa administração causou um grande alvoroço quando começamos este grupo. Eles passaram a ignorar nossos pedidos de anúncios por toda a escola, chamaram o Presidente e o Vice-Presidente para fora da sala de aula a fim de discutir, recusaram-se a responder a nossas perguntas e puseram a avaliação da professora que nos apoia em um nível tão baixo, que ela perderia parte da remuneração. Também tivemos quase 100 placas rasgadas com pouca ou nenhuma resposta administrativa, mesmo depois de termos pedido.

Recebemos ameaças escritas em panfletos e somos geralmente perturbados.

Nossos panfletos foram rasgados. Nossos membros foram insultados. No entanto, a administração escolar é muito solidária para com a nossa organização e nos apoia quando essas coisas ocorrem.

Estudantes extremamente religiosos perturbaram alguns membros no passado quanto a seu envolvimento e ocasionalmente removeram panfletos promocionais dos corredores.

A escola toda, inclusive professores, tem uma visão inclinada a favor do grupo e algumas das pessoas religiosas mais críticas daqui atormentaram as pessoas religiosas de mente aberta que gostam de vir aos encontros. Todos supõem que é o ‘clube ateu’, mesmo que tenhamos uma boa mistura de ateus, cristãos e pessoas que só estão curiosas. Os cristãos que estão interessados na discussão e no debate são criticados apenas por se envolverem. A perturbação só fica no ataque verbal ao grupo, nada físico, felizmente.

A Secular Student Alliance é rápida ao repreender escolas que fazem discriminação ilegal contra grupos estudantis. A SSA começou nos campi de faculdades e continua a ter alguns problemas neste nível, onde normalmente se espera que haverá um grupo estudantil secular. “Vemos muita resistência e obstrução por parte dos administradores no nível do ensino médio”, diz Galef, “o que é completamente ilegal. Mas é para isso que estamos aqui: para fazer telefonemas e enviar e-mails educados — e eventualmente telefonemas e e-mails menos educados — para lembrá-los da Lei de Acesso Igualitário [Equal Access Act]. Grupos estudantis seculares não podem ser discriminados com base no seu ponto de vista; não podem ser requisitados a passar por argolas pelas quais outros grupos não precisam passar”.

Galef observa que a Lei de Acesso Igualitário “foi originalmente defendida pela direita religiosa para permitir grupos de estudo da Bíblia depois da escola, e então alianças gays-heterossexuais começaram a crescer sob a mesma lei. Agora, grupos estudantis seculares estão crescendo sob esta lei”.

Como um aliado vê

Hemant Mehta leciona matemática em uma escola de ensino médio em Chicago. Ele está envolvido há muito tempo com a SSA como mentor. “Um estudante com quem eu trabalhei no ano passado em um centro de aulas de reforço me mandou um e-mail este ano”, Mehta disse a mim, “porque queria começar uma seção da SSA. Direcionei-o à SSA e disse-lhe que mantivesse contato quando tivesse perguntas ou precisasse de mim para assinar a papelada como um professor patrocinador. Obviamente, quero intervir o menos possível para que ninguém possa me acusar de tentar doutrinar estudantes com minhas crenças. Meu papel é somente o de apoiá-los nas suas próprias caminhadas”.

Hemant Mehta

Mehta também se alistou anteriormente para ser um mentor de Zona Segura. “Apesar de ainda não terem surgido estudantes por causa do programa de Zona Segura”, disse-me, “muitos alunos sabem que sou bem expansivo quanto ao meu ateísmo fora da escola”. (Mehta escreve e mantém o website Friendly Atheist.)

“Espero que os professores percebam o quanto é importante para eles ser alguém com quem jovens ateus possam falar sobre suas crenças. A Zona Segura é uma forma de mostrar que você é um aliado sem que seja necessário falar disso durante a aula. Caramba, você nem precisa ser ateu para fazer parte dela.”

Mehta vê a publicidade como próximo passo. “Desejo que alguns dos grupos obtenha publicidade através de projetos de voluntariado/caridade, debates (amistosos, organizados) com estudantes religiosos, e das questões interessantes que instigam — e que outros alunos em outras escolas se sintam inspirados a começar grupos também.

Mesmo quando potenciais voluntários ouvem falar do programa, Galef afirma, há barreiras para realmente tomar parte. O treinamento de voluntários não apenas fala sobre como ajudar estudantes, mas ainda há uma seção sobre como lidar com a resistência da comunidade. Galef diz que existem muitos casos em que conselheiros “recebem críticas de colegas ou patrões. Tivemos casos em que professores queriam patrocinar um clube estudantil secular no seu colégio, e o diretor lhes disse que seria uma má escolha na carreira”.

Finalmente, Galef espera que os aliados das Zonas Seculares Seguras normalizem a descrença. “Temos uma longa estrada à nossa frente”, complementou Galef, “mas este é mais um passo na direção da aceitação”.

*millennials: a geração Y, ou geração do milênio, é a coorte demográfica que sucede a geração X. Convenciona-se estipular as datas de nascimento dos millennials entre o começo dos anos 1980 e o começo dos anos 2000.

Fonte: The Atlantic

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This entry was posted on 14 de Setembro de 2013 by in Ateísmo and tagged , , , , .

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