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Hiato no aquecimento global aumenta o ceticismo em relação à teoria

Há uma década a charada climática aflige os cientistas defensores da teoria do aquecimento global provocado pela ação humana, enquanto alimenta os argumentos daqueles que insistem na falsidade dela. Desde antes do início do século XXI a temperatura média da superfície da Terra não aumenta, apesar dos níveis exorbitantes de gases estufa registrados e dos alertas proferidos por ambientalistas.

Reunidos nesta semana na Suécia com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas, os pesquisadores tentam entrar em um consenso quanto às avaliações do quinto relatório de estimativas da entidade, mas são pressionados para explicar a presente discrepância. De fato, a intenção do painel desde que começou, em 2007, foi a de produzir análises da situação climática do planeta em uníssono, ou seja, sendo uma voz clara e unificada.

Ao que parece, no entanto, especialistas de dentro e de fora do painel devem se engajar em um debate acalorado acerca das possíveis causas e significados do hiato nas tendências. O membro do IPCC e professor de ciências climáticas Shang-Ping Xie, por exemplo, reconhece que o tema é polêmico, e que os céticos estão “aumentando as apostas”.

As respostas ao hiato não são conclusivas, mas muitas teorias têm sido formuladas. O próprio Xie sugere que o hiato resulta da absorção de calor pelo Oceano Pacífico, um processo natural pouco compreendido que se repete de décadas em décadas. A hipótese, publicada na Nature, ainda não pode ser comprovada pelas medições, pois os registros de temperatura da superfície começaram a ser feitos no final do século XIX, mas os registros em águas profundas tiveram início apenas nos anos 1960, não havendo, portanto, dados suficientes para o estabelecimento de padrões de longo prazo. Outras teorias oferecidas para explicar o hiato incluem a ausência de atividade de manchas solares, baixas concentrações de vapor d’água atmosférico e outros efeitos relativos à atividade oceânica. Nada que passe do campo teórico, no entanto.

Para a sociedade, ocorre que é difícil conciliar a existência do hiato no aquecimento com os registros de verões com temperaturas recordes e o degelo sem precedentes da camada polar do Ártico.

Enquanto isso, as pessoas que refutam os princípios do aquecimento global provocado pela ação humana — i.e., os de que a queima de combustíveis fósseis e a emissão de gases de efeito estufa aquece a atmosfera — entendem o hiato como prova da inexistência do aquecimento. Dentre essas pessoas, os cientistas climáticos céticos alegam que o hiato revela falhas, possivelmente enviesadas, no processo deliberativo do IPCC, opondo-se à maioria dos especialistas, que diz ser o hiato apenas uma interrupção na tendência de longo prazo ao aquecimento.

Judith Curry, climatóloga do Instituto de Tecnologia da Geórgia, participou do terceiro relatório do IPCC, publicado em 2001. Desde então, passou a acusar a organização de arrogância acadêmica e tendenciosidade. Ela diz que, tudo o mais constante, “adicionar gases estufa na atmosfera terá um efeito de aquecimento sobre o planeta”, entretanto, “tudo o mais nunca é igual, e o que vemos é uma variabilidade climática natural dominante sobre o impacto humano”.

Curry não está sozinha ao sugerir falhas nos modelos climáticos estabelecidos. O vice-diretor do IPCC Francis Zwiers foi co-autor de uma dissertação publicada no periódico Nature Climate Change na qual diz que os modelos climáticos superestimaram “significativamente” o aquecimento global nos últimos 20 anos, especialmente nos últimos 15 anos, tempo que coincide com o hiato.

Segundo Zwiers, os modelos previram que a média da temperatura na superfície do globo subiria 0,21 grau Celsius no período, mas a elevação observada foi quatro vezes menor: 0,05, o que em termos estatísticos não é muito diferente de zero.

É óbvio que as pessoas não passam toda a vida sujeitas à temperatura global média de cerca de 15 graus Celsius. Por isto, os cientistas dizem que focar apenas esta estimativa pode nos levar à não observação de tendências regionais, particularmente no hemisfério Norte. O acima citado pesquisador Shang-Ping Xie, com a assistência de Yu Kosaka, usou modelos de computador para simular a oscilação decenal do Pacífico, fenômeno relacionado aos ciclos de temperatura oceânica de ambos El Niño e La Niña, que dura de 20 a 30 anos.

O resultado indica que latitudes medianas do hemisfério setentrional — região que engloba os Estados Unidos, a China e a maior parte da Europa — estariam termicamente “isoladas” do efeito de resfriamento advindo das oscilações decenais durante os meses de verão, bem como estaria a região do Ártico. Xie diz que, no verão, praticamente se elimina o efeito do resfriamento do Pacífico, sugerindo que “ainda somos assados pelos gases estufa”. Por conseguinte, o ano de 2012 ficou marcado por dois marcos climáticos, de acordo com Xie: os Estados Unidos tiveram o ano mais quente já registrado, enquanto a camada de gelo do Polo Norte chegou ao menor nível já observado por satélite.

O climatólogo do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA Bill Patzert, entre outros, afirma que também o aumento do nível do mar é “prova inequívoca” da ação dos gases estufa sobre o aquecimento do planeta, e de que boa parte do aquecimento é absorvida pelos oceanos. Conforme se aquece, a água oceânica se expande e eleva o nível do mar, diz Patzert. A taxa atual de elevação dos oceanos, de mais de 3 milímetros por ano, é muito mais rápida do que a taxa média dos últimos milhares de anos, dizem os pesquisadores.

Ainda segundo Patzert, “[n]ão há dúvidas de que, em termos de temperaturas globais, nós atingimos um plano”. Porém, “não tem havido qualquer desaceleração no aumento do nível do mar”, significando que o aquecimento global está bem ativo.

Resta saber se essa mensagem será comunicada com sucesso pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, uma vez que, nos últimos dias, o IPCC tem se posicionado na defensiva. Um esboço do relatório desta semana que vazou para a mídia revelou que os cientistas estavam “95% confiantes” de que a atividade humana foi responsável por mais da metade do incremento na temperatura global média entre 1951 e 2010.

Os críticos rebatem abertamente, atentando para o histórico ruim do IPCC na previsão de aumentos de temperatura no curto prazo.

“Este hiato imprevisto apenas reflete o fato de que não entendemos as coisas tão bem quanto pensávamos”, disse Roger Pielke Jr., professor de estudos ambientais da Universidade do Colorado em Boulder e crítico ativo dos modelos climáticos estabelecidos. O professor Pielke ainda afirma que chegamos a uma situação na qual nenhum grupo científico gostaria de estar: quando depende de campanhas de propaganda.

Fonte: Phys.org

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