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Estímulos no cérebro afetam a obediência a normas sociais

Participantes testadas com o uso da estimulação transcraniana por corrente contínua no Laboratório de Pesquisas de Sistemas Sociais e Neurais, Departamento de Economia, Universidade de Zurique. Foto: Marc Latzel

Participantes testadas com o uso da estimulação transcraniana por corrente contínua no Laboratório de Pesquisas de Sistemas Sociais e Neurais, Departamento de Economia, Universidade de Zurique. Foto: Marc Latzel

As sociedades humanas têm regras para regular como as pessoas devem se comportar em diversas situações. Das vestimentas às leis anti-incesto, nossos cérebros têm o poder de escolher se aceitamos essas normas. Agora, cientistas identificaram uma parte específica do cérebro que, quando estimulada, pode afetar nosso julgamento quanto a quais regras seguir.

Ao portal LiveScience, o professor de neuroeconomia Christian Ruff, da Universidade de Zurique, Suíça, disse que a complexidade das interações humanas “é tão grande, tão independente, que nossa sociedade não funcionaria sem normas”. Ainda segundo Ruff “[m]esmo que os humanos sejam muito bons em seguir normas, somos sempre tentados a quebrá-las. Precisamos de ameaças de punição para segui-las corretamente”.

Com base em estudo anterior que, com o uso de imagens de ressonância magnética, demonstrou que o córtex pré-frontal lateral direito (CPFLd) é ativado quando as pessoas seguem normas sociais para evitar punições, Ruff e seus colegas Giuseppe Ugazio e Ernst Fehr investigaram se estimular a região pode tornar as pessoas mais ou menos sensíveis à ameaça de punição.

Os pesquisadores recrutaram 63 estudantes para que interagissem umas com as outras via um jogo de computador com aspectos monetários reais. O experimento funcionou da seguinte forma: as participantes recebiam dinheiro e era requisitado a elas que decidissem quanto dele dividiriam com uma parceira anônima. Existe um senso de justiça nas culturas ocidentais que dita que o dinheiro deve ser dividido em partes iguais, o que contrasta com o interesse pessoal de manter o máximo de dinheiro possível para si. Em outro experimento, as participantes enfrentavam a mesma decisão, mas sabiam de antemão que poderiam ser punidas pelas parceiras caso fizessem uma proposta injusta, tendo parte do dinheiro tomada delas arbitrariamente.

Durante os testes, os pesquisadores aplicaram pequenas e indolores descargas elétricas (método conhecido como estimulação transcraniana por corrente contínua) na região do CPFLd dos cérebros de algumas participantes. Variando a direção da corrente elétrica, os estudiosos poderiam aumentar ou reduzir a atividade cerebral na região. As demais participantes não levaram choques e serviram como grupo controle.

As estudantes que começaram com o dinheiro escolheram doar apenas entre 10 e 20 por cento dele, em média. Quando eram punidas por quem recebeu a oferta, passavam a doar 40 a 50% nas rodadas subsequentes do jogo, o que se aproxima da norma mais justa de dividir os fundos 50%-50%.

Apurou-se que os estímulos elétricos produziram efeitos bastante diferentes dependendo da existência (ou não) da ameaça de punição. Quando a ameaça estava presente, o estímulo que aumentava a atividade cerebral fazia com que as estudantes doassem mais dinheiro; em contraste, estímulos que reduziam a atividade cerebral, mesmo sob ameaça, fizeram-nas doar menos.

Na ausência de punição, ou seja, quando a divisão era voluntária, os efeitos dos estímulos de aumento e redução da atividade nervosa foram opostos: as estudantes deram menos dinheiro quando tiveram a atividade cerebral elevada, e mais dinheiro quando esta era reduzida.

Os cientistas também fizeram com que as participantes jogassem contra o próprio computador, ao invés de jogarem com outra pessoa. Neste caso, estimular o CPFLd produziu efeitos muito mais fracos.

Contexto social

As descobertas detalhadas no periódico Science sugerem que, na verdade, o córtex pré-frontal lateral direito não age como um interruptor, decidindo entre respeitar, ou não respeitar, uma norma. Ocorre que esta região do cérebro utiliza o contexto social para determinar a concordância (ou não) com as regras.

O neurocientista da Universidade Harvard Joshua Buckholz, que não esteve envolvido nos experimentos, supõe que o contexto de haver uma ameaça de punição pode modificar a conectividade entre o CPFLd e outras regiões do cérebro, dado que “a estimulação cerebral exatamente na mesma região tem efeitos opostos no comportamento cooperativo que dependem inteiramente do contexto”.

Antes que passemos o carro na frente dos bois, popularmente falando, a ideia de que o cérebro possa ser manipulado para tornar as pessoas mais suscetíveis às normas sociais tem tremendas implicações morais e legais. Ruff diz que, se conhecermos esse mecanismo, “poderemos pensar em maneiras de influenciá-lo para ajudar pessoas que têm problemas em seguir as normas”.

No entanto, nada é tão simples quanto estimular o cérebro de um criminoso para que este se torne um cumpridor da lei: “Há uma grande diferença entre a modificação aguda no laboratório e uma mudança a longo prazo na maneira como as pessoas representam e processam normas sociais na natureza”, afirmou Buckholz.

Fontes: LiveScience, Phys.org

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