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O lago alcalino que transforma animais em “pedra”

Flamingo calcificado pela água alcalina do Lago Natron, na Tanzânia. © Nick Brandt 2013, Hasted Kraeutler Gallery, NY

Flamingo calcificado pela água alcalina do Lago Natron, na Tanzânia. © Nick Brandt 2013, Hasted Kraeutler Gallery, NY

Em 2011, o fotógrafo Nick Brandt viajou ao leste da África para capturar imagens que seriam utilizadas no seu novo livro, Across the Ravaged Land, sobre o desaparecimento da vida selvagem naquela região do continente. Foi então que Brandt se deparou com um lugar fantástico: um lago natural que parece transformar os animais em pedra.

“Quando eu vi aquelas criaturas pela primeira vez ao longo do lago, fiquei completamente surpreso”, diz o fotógrafo, que instantaneamente teve a ideia de retratá-las como se estivessem vivas.

Morcego. © Nick Brandt 2013,  Hasted Kraeutler Gallery, NY

Morcego. © Nick Brandt 2013, Hasted Kraeutler Gallery, NY

O Lago Natron, localizado na porção norte da Tanzânia, é um lago salgado, ou seja, a água flui até ele mas não tem por onde sair, de forma que só “escapa” via evaporação (da mesma forma como ocorre no Mar Morto). Conforme a água evapora, ficam depositadas no lago altíssimas concentrações de sal e outros minerais.

Ao contrário do Mar Morto, o Lago Natron é extremamente alcalino devido à enorme quantidade do composto químico natrão (natron, em inglês), que dá nome ao lago, na água.  O natrão é uma mistura de carbonato de sódio e bicarbonato de sódio que, quando misturada na água, confere a esta um caráter básico. De fato, o pH da água do Lago Natron já alcançou a medida de 10,5 — quase tão alto quanto a amônia. Brandt salienta que o pH é “tão alto que removeria a tinta das minhas caixas de filme Kodak em alguns segundos”.

Andorinha. © Nick Brandt 2013,  Hasted Kraeutler Gallery, NY

Andorinha. © Nick Brandt 2013, Hasted Kraeutler Gallery, NY

Como seria de se esperar, poucos animais vivem nessas águas, que podem chegar à temperatura de 60º Celsius. Habitam o lago uma espécie de peixe (Alcolapia latilabris), algumas algas e um grupo de flamingos que se alimenta das algas e procria nas margens.

No entanto, aves que estão migrando frequentemente colidem com a superfície do lago, supõe Brandt, porque as águas quimicamente densas e altamente refletivas dele agem como uma porta de vidro, dando a entender que os pássaros estão voando em meio ao espaço vazio (há não muito tempo, um piloto de helicóptero sofreu da mesma ilusão e colidiu sua aeronave, rapidamente corroída pela água alcalina).

Ave canora. © Nick Brandt 2013,  Hasted Kraeutler Gallery, NY

Ave canora. © Nick Brandt 2013, Hasted Kraeutler Gallery, NY

Durante o período de seca, quando a água recua, as carcaças dissecadas e quimicamente preservadas dos pássaros surgem nas margens. Fascinado por isso, Brandt convidou moradores de áreas próximas ao Lago Natron para ajudá-lo a recolher espécimes em ótimo estado de conservação: “Pensaram que eu estava completamente insano — um cara branco louco chega oferecendo dinheiro às pessoas para que, basicamente, vão caçar tesouro ao redor do lago em busca de aves mortas”, afirma o fotógrafo.

Apesar do perigo relacionado ao contato com a água — “[é] tão cáustica que, mesmo que você tenha um corte minúsculo, é muito doloroso” — Brandt e seus ajudantes obtiveram os espécimes que vemos nas fotos.

Águia-pescadora-africana. © Nick Brandt 2013,  Hasted Kraeutler Gallery, NY

Águia-pescadora-africana. © Nick Brandt 2013, Hasted Kraeutler Gallery, NY

Para a série de fotos intitulada “Os Calcificados”, que figura nas páginas deste mês da New Scientist, Brandt criou poses com as “múmias” para que parecessem situações reais, “[m]as os corpos estão exatamente do jeito como as aves foram encontradas”, insiste ele.

Pombo. © Nick Brandt 2013,  Hasted Kraeutler Gallery, NY

Pombo. © Nick Brandt 2013, Hasted Kraeutler Gallery, NY

Fonte: Smithsonian

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2 comments on “O lago alcalino que transforma animais em “pedra”

  1. Pingback: Freud, Golfinhos e mais: Os 10 artigos do Make It Clear mais lidos em 2013 | Make It Clear Brasil

  2. Uilmara Machado de Melo Gonçalves
    6 de Dezembro de 2016

    Meu DEUS!… A gente pensa que já viu/leu de tudo nesta vida e aparece um assunto interessante e instigante como este! SENSACIONAL! E as fotos, embora tristes, são uma obra à parte!!! PARABÉNS!!! Adorei!

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This entry was posted on 3 de Outubro de 2013 by in Meio ambiente and tagged , , , , .

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