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Odor de óleo diesel prejudica sinais olfativos das abelhas

Uma abelha investiga a flor da colza, ou couve-nabo. Estudo indica que a poluição atmosférica através da queima de óleo diesel pode afetar negativamente a capacidade que as abelhas têm de sentir o aroma das flores. Foto: Nigel Cattlin, Alamy

Uma abelha investiga a flor da colza, ou couve-nabo. Estudo indica que a poluição atmosférica através da queima de óleo diesel pode afetar negativamente a capacidade que as abelhas têm de sentir o aroma das flores. Foto: Nigel Cattlin, Alamy

Quando as abelhas procuram por flores, elas aprendem e memorizam os aromas florais — que, para elas, nunca são uns iguais aos outros — que encontram. Depois, avisam aos demais membros da colmeia quanto às suas descobertas. De acordo com um novo estudo publicado no Scientific Reports, este ritual tem sido interrompido por um tipo de poluição do ar: o diesel queimado pelos nossos meios de transporte e carga.

O estudo aponta que poluentes gerados a partir da combustão nos motores degradam certos elementos químicos presentes no perfume das flores. Sem tais elementos, prejudica-se a habilidade que as abelhas têm de reconhecer o perfume.

Para a infelicidade das abelhas, os escapamentos não são a única ameaça a ser, por elas, enfrentada. Sabe-se que a exposição a diversos pesticidas pode enfraquecer sua capacidade olfativa, enquanto que o fenômeno conhecido como smog (do inglês, smoke + fog, uma neblina com fumaça) e a radiação ultravioleta podem degradar os componentes do aroma floral que as abelhas sentem.

Este novo estudo nos ajuda a compreender o fator de risco específico que vem da fumaça dos carros, caminhões, trens, navios e máquinas pesadas. Indo além, a pesquisa utilizou diesel com baixíssimo teor de enxofre nos experimentos, e indica que o uso do diesel “limpo”, resultado da remoção do enxofre desse combustível ao longo da última década, não facilitou o trabalho das abelhas.

A importância do odor

Milhares de compostos químicos se misturam na determinação do odor de uma flor, razão pela qual a abelha (Apis mellifera) precisa de um olfato apurado. Por exemplo, Quinn McFrederick, ecólogo da Universidade Estadual de Fresno, na Califórnia, diz que uma abelha “pode ver uma flor vermelha, e dizer ‘oh, seria esta uma flor que eu gostaria de visitar?’, e utiliza pistas do odor para descobrir se vale a pena visitá-la”. Estas “pistas” do odor informam às abelhas o valor nutricional do néctar e do pólen da flor.

Há muito tempo os cientistas pensam que a poluição do ar esconde os aromas florais, mas o novo estudo fornece evidências do modo como o gás do escapamento altera a composição química dos odores. Para tanto, a equipe de pesquisa da Universidade de Southampton, Reino Unido, usou uma paleta de aromas extraídos de uma planta comumente procurada pelas abelhas, a colza, ou couve-nabo (Brassica napus).

Os aromas foram expostos à fumaça gerada a partir da queima do diesel de baixo teor de enxofre e, quase instantaneamente, a fumaça começou a quebrar dois dos compostos odoríficos: farneceno e terpineno. Após as abelhas serem treinadas para reconhecer o aroma da flor, os pesquisadores retiraram os dois componentes degradados da mistura.

“Para nossa surpresa, realmente, vimos que mesmo mudanças em um dos constituintes secundários da mistura causou uma alteração importante na resposta da abelha ao cheiro”, disse Tracey Newman, neurobiólogo e co-autor do estudo.

Os pesquisadores afirmam que um componente da fumaça é o culpado pela degradação: os gases NOx (óxidos de nitrogênio), compostos que contêm ambos nitrogênio e oxigênio, e reagem com os odores florais voláteis. Há que se salientar a emissão desses gases também pela gasolina, biodiesel e etanol. Porém, Guy Poppy, outro co-autor do estudo, diz que não se pode “apontar o dedo para o biodiesel, diesel ou petróleo”. Segundo ele, trata-se de um problema nos motores de combustão interna.

A química das flores

As colzas não são as flores com o aroma mais agradável para nós, mas seus odores são bem compreendidos e os dois componentes degradados pela fumaça parecem ser elementos-chave para a comunicação olfativa das abelhas. McFrederick, que não se envolveu no estudo, diz que as descobertas podem conter grandes implicações para outros agentes polinizadores, visto que outras espécies de abelhas e polinizadores dependem ainda mais do aroma para se guiarem em longas distâncias.

Os compostos degradados no experimento estavam presentes no odor em níveis pequenos, e a remoção do terpineno, por si só, levou a uma redução significativa da capacidade de reconhecimento das abelhas. O próximo passo dos pesquisadores é observar o impacto do diesel sobre o sistema nervoso delas.

De acordo com Jose Fuentes, meteorologista da Universidade Estadual da Pensilvânia que não esteve afiliado à pesquisa, esta “claramente ilustra que a poluição do ar pode impactar perniciosamente a habilidade de as abelhas localizarem alimento”. Fuentes faz algumas ressalvas, no entanto, com respeito (I) aos níveis de poluente utilizados nos experimentos, segundo ele, mais altos do que no horário de pico urbano; e (II) ao impacto dos gases NOx, que pode ser indireto, pois esses gases reagem com o ar e a luz solar para gerar o ozônio troposférico (smog), possivelmente o culpado direto pela quebra dos componentes do odor.

Portanto, apesar de não estar claro o real impacto dos poluentes do diesel sobre a polinização, o novo estudo sugere que a fumaça dos escapamentos deveria ser incluída na lista de ameaças conhecidas.

“Abelhas vivendo no mundo moderno podem enfrentar diversas pressões”, diz Poppy, incluindo doenças, inseticidas e poluentes atmosféricos. “Provavelmente, as abelhas podem lidar com a maioria dessas pressões quando isoladas, ou quando duas ou três delas vêm juntas. Mas quando elas vêm todas juntas simultaneamente, pode-se começar a ver efeitos significativos e que podem explicar algumas das coisas que estamos vendo… com polinizadores sendo perdidos ao redor do mundo”.

Fonte: National Geographic

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This entry was posted on 4 de Outubro de 2013 by in Biologia, Meio ambiente and tagged , , , , , , , .

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