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Tratamento para doenças hereditárias levanta questões éticas

Mitofotografia de uma mitocôndria (em amarelo), uma das "fabriquetas" de energia dentro de uma célula. Crédito: Keith R. Porter/Science

Microfotografia de uma mitocôndria (em amarelo), uma das “fabriquetas” de energia dentro de uma célula. Crédito: Keith R. Porter/Science

O governo dos Estados Unidos decide se permite aos cientistas dar um passo controverso: fazer alterações em parte do material genético de um óvulo que seria transmitido às gerações seguintes.

O pesquisador Mark Sauer, do Centro Médico da Universidade de Columbia, membro de uma das duas equipes de cientistas norte-americanos que realizam as pesquisas em evidência, chama a atenção para a possibilidade de prevenirmos que crianças sofram de terríveis doenças genéticas e afirma que as equipes esperam “curar doenças e ajudar mulheres a dar à luz crianças saudáveis e normais”.

Porém, as pesquisas levantam algumas preocupações, incluindo uma consoante ao uso da modificação genética para criar “bebês projetados”. Foi agendada uma audiência para o dia 22 de outubro a fim de que a Food and Drug Administration (agência do governo americano responsável pelo controle, dentre outras coisas, dos alimentos e medicamentos) debata tais preocupações.

As pesquisas consistem na criação de um óvulo com DNA mitocondrial (mtDNA) saudável. Ao contrário do DNA com os quais estamos familiarizados — os 23 pares de cromossomos humanos — o mtDNA é a informação genética contida nas mitocôndrias, estruturas localizadas dentro das células que fornecem energia às últimas. Estima-se que 1 em cada 200 mulheres tenha defeitos no mtDNA, e que 1 em cada 2.000 ou até 1 em cada 4.000 crianças nasçam, anualmente, com síndromes causadas por estes erros genéticos. Em muitos casos, não existe tratamento e a criança portadora pode vir a falecer ainda na infância.

Lori Martin, de Houston, Texas, descobriu que seu filho, Will, havia nascido com uma doença mitocondrial conhecida como síndrome de Leigh quando ele tinha cerca de 2 anos de idade. Martin relata que a experiência de saber que seu filho vai morrer muda e “destrói” o mundo de uma pessoa. Ela e seu marido tentam fazer com que Will viva o máximo possível da maneira mais feliz possível mas, ao mesmo tempo, querem ter outros filhos — com o que seu médico não concordou.

“Como sou portadora, me disseram ser recomendável que eu não tenha mais filhos biológicos usando meus óvulos”, Martin diz, completando que ter de ouvir isto “[é] um golpe bastante devastador”.

As pesquisas propostas podem ajudar Martin e outras mulheres como ela: “Desenvolvemos uma técnica que permitiria a uma mulher ter um filho que não seja afetado por esta doença, e a criança ainda seria aparentada a ela geneticamente”, diz Dieter Egli, da New York Stem Cell Foundation.

No procedimento, os cientistas utilizam óvulos de mulheres portadoras de defeitos no material genético mitocondrial, retirando deles todos os genes com exceção do mtDNA. Então, repetem a operação com óvulos doados por mulheres com mtDNA saudável. O DNA da mulher que quer ter a criança é transferido para o óvulo saudável e, então, tem-se um óvulo portando o DNA da mãe que também contém DNA mitocondrial saudável da doadora, conforme explica Egli. A partir daí, o óvulo pode ser fertilizado em laboratório com o esperma do pai e, o embrião resultante, transferido para o útero da mãe.

Cientistas no Oregon já produziram embriões humanos dessa maneira e teviram sucesso na criação de bebês de macacos saudáveis usando a técnica. Agora, junto ao grupo de pesquisas de Nova York, eles querem dar o próximo passo, ou seja, criar bebês humanos saudáveis.

No entanto, as pesquisas não estão imunes a polêmicas. Alguns lembram que a criança nasceria com genes de três pessoas diferentes: do pai, da mulher que quis ter um(a) filho(a) saudável e da mulher que doou o óvulo saudável. Ronald Green, do Dartmouth College, por exemplo, sustenta que existem problemas de identidade e questões com os quais a criança deverá lidar mais tarde: “‘Quem sou eu? Sou um ser humano como todos os outros seres humanos com dois pais? Sou um tipo novo de criatura?'”

Outra preocupação diz respeito à segurança proporcionada (ou não) pela técnica à criança resultante. A tentativa de solucionar um problema não poderia provocar outros erros no código genético humano?

“Se erros forem cometidos, não serão apenas erros na criança que nasceu. Mas se esta criança [for uma menina e] tiver descendentes, (…) [estes] herdarão as mitocôndrias dela, e teremos introduzido novas doenças genéticas na população humana”, afirma Green.

Ainda, uma última questão ética levantada por analistas é a possibilidade de serem feitas alterações no DNA humano deliberadamente para a produção de “bebês projetados”. Marcy Darnovsky, do Center for Genetics and Society, diz que “[o] problema é que, uma vez que comecemos a dizer que vamos permitir alterações genéticas hereditárias para produzir crianças mais saudáveis, a próxima etapa seja permitirmos que estes tipos de experimentos de engenharia genética produzam crianças mais inteligentes ou mais atléticas”.

Os cientistas que querem realizar os experimentos se defendem alegando não serem capazes de fazer nada que se assemelhe a isso, e que suas análises apontam para a segurança e confiabilidade do procedimento que propõem.

Já Martin espera que as pesquisas continuem, pois, mesmo que seja tarde para ela, outras mulheres, como sua irmã mais nova, podem ser beneficiadas. “Qualquer mulher adoraria ser capaz de criar seu próprio bebê”, diz.

Fonte: npr.org

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This entry was posted on 9 de Outubro de 2013 by in Medicina and tagged , , , , , , .

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