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Peixes parasitas são sexualmente atraídos pela bile

Estudo revela que o famoso perfume Chanel No. 5 tem um novo concorrente: o odor da bile (bílis, ou suco biliar) enlouquece as lampreias fêmeas.

"-Que perfume bom! É Chanel?" "-Não, é bile..." Foto: James. L. Amos, National Geographic

“-Que perfume bom! É Chanel?” “-Não, é bile…” Foto: James. L. Amos, National Geographic

A bile nunca teve um odor atraente, sequer para a lampreia-marinha (Petromyzon marinus), uma espécie de peixe parasita. Tudo começou com um auxílio à digestão da gordura ingerida pelas lampreias que, com o tempo, se tornou um sinal sexual que encoraja as “damas” lampreias a acasalarem com os machos que liberam a substância.

Pesquisadores da Universidade Estadual do Michigan e do United States Geological Survey se uniram para estudar como a bile realizou esta transição no curso da evolução. A equipe focou a região dos Grandes Lagos (na divisa dos Estados Unidos com o Canadá), na qual habitam duas espécies de lampreia: a nativa lampreia-de-prata (Ichthyomyzon unicuspis) e a invasora lampreia-marinha.

Ambas as espécies tiveram um ancestral comum, apesar de os pesquisadores acreditarem que a lampreia-de-prata é mais próxima desse ancestral. Ambas, ainda, possuem uma ventosa bucal que as ajudam na fixação a uma presa. Usando seus dentes afiados e sua língua raspadora, elas perfuram a carne da presa até atingirem a corrente sanguínea.

A evolução do sinal sexual

Há cerca de 10 anos, o professor da MSU Weiming Li e seus colegas demonstraram que as lampreias-marinhas usam um composto químico presente na bile como feromônio. Quando os machos liberam uma substância conhecida como 3kPZS, as fêmeas passam a nadar em volta dele e a buscar a cópula. Sendo a lampreia-marinha é uma espécie invasora, alguns cientistas pensaram em entender como essa substância influencia o comportamento sexual para que pudessem impedir a reprodução e reduzir a quantidade de espécimes desta lampreia.

Então, Li e seus pares passaram à análise do 3kPZS enquanto possível sinalizador sexual também das lampreias-de-prata nativas. Se a resposta fosse “sim”, utilizar o composto no controle da população de lampreias-marinhas prejudicaria a espécie nativa, e a estratégia não funcionaria. Portanto, a resposta das lampreias nativas à bile era decisiva, mas o Dr. Li tinha outra coisa em mente: estudar o feromônio em termos evolutivos.

“A bile nada tem a ver com sexo — então, como poderia ela ter evoluído como um sinal sexual?”, perguntou-se Li. “Seria mais divertido observar como estes feromônios evoluíram, o que teria maior significância científica”. O cientista supôs que o segredo para a compreensão do que, de fato, atrai as lampreias-marinhas fêmeas para a bile está em algo que conhecemos como o viés do receptor.

Isto ocorre quando um traço do macho (no caso, a liberação do 3kPZS antes do acasalamento) evolui graças a um viés, ou tendência, no sistema sensorial (a habilidade de detectar o composto) da fêmea. Os sais que compõem a bile não começaram como sinalizadores reprodutivos, mas as fêmeas que tinham uma melhor capacidade de detecção da substância 3kPZS tiveram mais descendentes do que as demais, menos sensíveis à substância. A partir daí, a bile deixa a condição de mero auxílio digestivo e se transforma em feromônio.

Façamos uma analogia com o uso que nós, humanos, fazemos dos perfumes. No começo, as fragrâncias eram usadas para disfarçar o odor das pessoas que não tomavam banho frequentemente. Hoje, apesar de os nossos hábitos de higiene terem melhorado muito, ainda usamos perfumes, mas com uma diferença: o uso geralmente é acompanhado de motivação sexual, ou seja, é um meio de atrair parceiros ou parceiras a partir do cheiro agradável.

A pesquisa de Li dá suporte à noção de que o viés do receptor explica como o 3kPZS se tornou um sinalizador sexual nas lampreias-marinhas. Entretanto, as lampreias-de-prata, menos evoluídas — mais próximas evolutivamente do ancestral comum — possuem uma resposta à bile liberada pelos machos que não leva as fêmeas à cruzar. O composto químico ativa o comportamento sexual apenas nas lampreias-marinhas, peixes que evoluíram mais recentemente.

“Precisamos ser cautelosos com o modo como interpretamos esses resultados, já que ainda há muitas incógnitas”. disse Li no estudo apresentado no periódico Proceedings of the Royal Society B.

Porém, o estudo parece conclusivo o bastante para algumas organizações que trabalham com pescados nos Grandes Lagos, pois elas já estão desenvolvendo projetos que utilizem o 3kPZS para tentar reduzir a população de lampreias invasoras e proteger os peixes nativos.

Fonte: National Geographic

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This entry was posted on 15 de Outubro de 2013 by in Biologia and tagged , , , , , , .

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