Make It Clear Brasil

Um apoio ao livre pensamento e a um entendimento do mundo baseado em evidências

Alergias podem ser boas, afinal

AlergiaMuitas pessoas sofrem de urticária ou falta de ar quando são expostas a agentes como o pólen, amendoim ou uma picada de inseto. Para deixar o quadro um pouco mais favorável, pense na sua alergia como um superpoder bastante irritante que sinaliza ao corpo a presença de algo que você não ingeriu ou inspirou conscientemente. Após décadas de estudos, porém, os cientistas ainda não conseguem determinar a razão exata pela qual as alergias existem.

Há uma visão predominante entre os especialistas, segundo a qual a alergia é uma resposta imunológica mal orientada, uma vez que as reações alérgicas basicamente copiam o modo como o corpo responde a parasitas como vermes, se esforçando para expulsá-los através dos espirros, do vômito e dos olhos lacrimejantes. Entretanto, dois novos estudos contêm evidências de que estas respostas do corpo não seriam um mero acidente: elas podem ser a maneira que o corpo tem de nos proteger contra toxinas do ambiente que nos cerca. Não é a primeira vez que esta hipótese é proposta, mas os novos trabalhos parecem fornecer dados que a apoiem.

Simulando ferroadas de abelha e mordidas de cobra em ratos, os pesquisadores descobriram que a exposição a estes venenos pode encadear uma resposta imunológica na qual o corpo cria anticorpos específicos para facilitar a neutralização das substâncias em oportunidades futuras. Um dos estudos observou que os roedores que recebiam uma pequena dose desses venenos seguida, três semanas depois, de uma dose que seria fatal, tinham uma chance de sobrevivência muito maior do que aqueles aos quais foi ministrada apenas a dose mais intensa.

Os pesquisadores reuniram evidências de que os ratos que recebiam a pequena dose inicial de veneno, semelhante a uma ferroada ou mordida, desenvolviam anticorpos específicos para os alergênios (substâncias que provocam reação alérgica), que se atam a células de todo o corpo, deixando-as preparadas para reagirem rapidamente ao veneno. As dissertações, escritas por cientistas de faculdades de medicina das universidades Stanford e Yale, serão publicadas na edição do periódico Immunity de 14 de novembro.

Segundo os autores, saber mais sobre o porquê de as alergias ao veneno existirem e traçar a trajetória molecular da resposta imunológica a ele poderia ter implicações sobre a compreensão de alergias a outras coisas também. A coceira, a tosse ou o vômito como resultados da exposição a agentes ambientais podem ser um sinal de que o corpo está preparando uma resposta para auxiliá-lo a sobreviver a estas mesmas substâncias no futuro — ou para predispô-lo a evitar tais substâncias.

No entanto, os estudos não encerram, de uma vez por todas, a questão de por que temos alergia. Por exemplo, eles não fornecem respostas sobre o porquê de o sistema imunológico, por vezes, reagir exageradamente através de respostas hipersensíveis, como a anafilaxia, ou anafilaxis, (ou ainda choque anafilático, nos casos mais graves), uma reação alérgica potencialmente letal que obstrui as vias aéreas e provoca uma queda repentina da pressão sanguínea. Uma teoria apresentada pelos autores é a de que estas reações severas são remanescentes da evolução: a anafilaxia poderia ser um mecanismo protetor que agisse bruscamente, mas que faria a diferença por aumentar a chance de sobrevivência dos nossos ancestrais em comparação com a total desproteção contra as toxinas.

O mesmo princípio que parece agir no caso de alergias pode atuar na anemia falciforme, diz Stephen Galli, patologista de Stanford. Na anemia falciforme, o indivíduo que porta duas cópias do gene defeituoso desenvolve uma grave doença, mas portar apenas uma cópia auxilia na proteção da pessoa contra a malária.

Indo mais a fundo, temos que nosso sistema imunológico geralmente possui dois modos de ação para lidar com substâncias estranhas ao corpo. Uma resposta tipo 1 mataria o invasor, e uma do tipo 2 apenas o expulsaria do corpo. Agentes patogênicos tais como bactérias, vírus e células infectadas ativam o tipo 1, ou seja, matá-los; parasitas e outras ameaças externas maiores levam a uma resposta tipo 2, i.e., a expulsão. Usar uma estratégia tipo 1 para objetos como os alergênios “seria como usar uma bomba nuclear para lidar com a criminalidade de rua”, diz Ruslan Medzhitov, especialista em imunobiologia de Yale e co-autor de um dos estudos. Como o pólen e o veneno não são parasitas, muitos estudiosos têm dado apoio à ideia de que a resposta imunológica às alergias é apenas uma “falha técnica”. Já os novos estudos, por outro lado, nos fornecem dados que sugerem que esta resposta pode ser, sim, uma ação deliberada.

Então, por que as alergias a alimentos afetam cerca de 5% das crianças dos Estados Unidos, se a comida não é diretamente prejudicial? As razões permanecem pouco compreendidas, e os estudos não se dirigem a elas. Talvez os alimentos contenham proteínas que lembram o corpo de outras substâncias (danosas). Portanto, no curso da evolução, nossos corpos podem tê-las inserido, involuntariamente, na mesma categoria, propõe Medzhitov.

Quanto à questão de por que as alergias estarem aparentemente em crescimento, os trabalhos atuais em nada apontam para a hipótese da higiene, que relaciona as alergias aos limpos ambientes modernos. Segundo esta teoria, o advento da água potável e a infância isenta da ingestão excessiva de sujeira — e dos micro-organismos que a acompanham — podem ter evitado que o sistema imunológico recebesse o treinamento necessário para seu correto funcionamento. Dessa forma, uma exposição saudável a estes invasores leva o corpo a investir mais em respostas tipo 1, incluindo a defesa contra os micróbios, ao invés de investir no tipo 2, como as alergias.

A equipe de Stanford simulou ferroadas de abelha e mordidas de cobra em duas estirpes (grupos de indivíduos com um ancestral comum que compartilham semelhanças fisiológicas) de ratos, a fim de que se pudesse avaliar até que ponto a genética influencia a resposta imunológica. Descobriu-se que a prévia exposição aos venenos garante uma proteção significativa em ambas as estirpes, ou cepas. Quando os ratos foram expostos à toxina da abelha e passaram pelo mesmo processo três semanas depois, pelo menos 80 por cento sobreviveram; dos ratos que não haviam sido inoculados (expostos à substância), menos de 30 por cento sobreviveram à exposição ao veneno.

A simulação das mordidas de cobra levaram a uma taxa de mortalidade similar: ao menos três quartos dos ratos previamente expostos sobreviveram, em comparação com uma proporção de apenas um quarto no grupo controle. Mais ainda, no caso da ferroada, a proteção era transferível, o que quer dizer que ratos não expostos previamente obtiveram alguma proteção quando receberam soro contendo anticorpos específicos para o veneno de abelha.

Em Yale, a equipe de pesquisadores que testou a exposição aos venenos de abelha e de cobra também descobriu que depois de seis imunizações semanais de uma enzima comum aos dois tipos de peçonha, os ratos expostos à enzima após uma semana sem serem inoculados obtiveram melhor proteção do que os não imunizados. Na natureza, cada veneno, com suas várias substâncias, pode impactar o corpo de maneiras ligeiramente diferentes. Focando uma enzima específica, os investigadores puderam estudar o trajeto molecular que pode dar início ao desenvolvimento de anticorpos contra múltiplos venenos, abrindo o caminho para a projeção de terapias, dizem os autores. Nem todos os venenos contêm esta enzima em particular, mas as descobertas dos pesquisadores das duas universidades lançam um novo olhar sobre a interação entre os alergênios e o corpo.

“É muito difícil dizer se isto vai mudar a forma como as pessoas com alergias são tratadas (…), mas, pelo menos, os médicos podem dizer que não é um completo mistério por que essas alergias se desenvolveram”, afirma Galli. Existe um a linha tênue entre a proteção e a anafilaxia e ainda não sabemos o que controla a passagem de uma resposta protetiva para uma mortal, o que evita que cheguemos a um tratamento baseado nas descobertas.

Fonte: Scientific American 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 24 de Outubro de 2013 by in Medicina and tagged , , , , , , , , .

Navegação

%d bloggers like this: