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No Quênia, fósseis desafiam as crenças religiosas

Crânios de hominídeos em exibição no Quênia. Ao fundo, o diretor dos Museus Nacionais do Quênia, Kyalo Manthi. (AFP)

Crânios de hominídeos em exibição no Quênia. Ao fundo, o diretor dos Museus Nacionais do Quênia, Kyalo Manthi. (AFP)

No museu nacional do Quênia, meninos e meninas observam com perplexidade os esqueletos de ancestrais humanos de 1.5 milhão de anos. As visitas ao museu são uma ferramenta primordial para que os professores modernos ensinem aos estudantes a origem do ser humano. No entanto, os alunos se deparam com um contraste entre os feitos da ciência e as tradições religiosas.

Neste religioso país africano — apelidado de “berço da humanidade“, devido à enorme quantidade de registros fósseis dos primeiros hominídeos e da evolução humana escavados ali — os restos mortais apresentados nos museus desafiam os ensinamentos literais do cristianismo, islamismo e de outras crenças tradicionais.

“Têm havido desafios ao ensino da evolução (…) principalmente por causa dos ensinamentos religiosos da criação, que estão profundamente entrincheirados”, disse à AFP o diretor da seção de paleontologia dos Museus Nacionais do Quênia, Fredrick Kyalo Manthi. Tais ensinamentos “tendem a desconsiderar a explicação científica de que todas as espécies biológicas, incluindo humanos, em geral, evoluíram de formas simples para formas complexas”, complementou.

No museu da capital Nairóbi, alunos e alunas passam por vestígios famosos de antigos hominídeos, o mais velho dos quais datando de 18 milhões de anos atrás. “É um desafio”, afirma o educador primário Manasseh Maina, que conduz uma turma de estudantes pelo museu, parando para encarar o “Menino de Turkana“, um dos dois únicos esqueletos quase completos de hominídeos do mundo.

Revolução na compreensão científica

Uma placa no museu diz que os fósseis são “a coleção mais importante” do mundo, tendo todos o registros sido encontrados no país. Precisamente, o Grande Vale do Rift — que vai da Tanzânia, ao sul, atravessa o Quênia e se dirige à Etiópia, ao norte — forneceu fósseis essenciais para que se pudesse compreender cientificamente a evolução humana.

“Quando se começa a explicar a evolução às crianças, se você não tem coisas concretas, pode parecer muito irreal”, disse Maina. “Mas isto ainda contradiz o que a Bíblia diz sobre como Deus criou o mundo”. As escolas quenianas ensinam o mito da criação de Adão e Eva (a partir da costela do seu par) nas aulas de estudos religiosos, do modo como é descrito pelo livro do Gênesis. Porém, nas aulas de ciências e história, as crianças aprendem sobre darwinismo e evolução, teorias cujas evidências os estudantes veem naqueles ossos frágeis.

Joy, aluna de 14 anos, diz que parece haver “uma contradição em algum lugar”, pois as crianças aprendem ambos, evolução e Bíblia.

Reclam(ações)

Em 2006 e 2007, o bispo de uma grande congregação evangélica, Bonifes Adoyo, lançou uma campanha com a finalidade de restringir o acesso a alguns dos exemplares dos museus. A campanha enfureceu o então diretor dos Museus Nacionais, o paleontólogo Richard Leakey, que considerou a proposta “ultrajante”. Leakey argumentou que os museus deveriam, sim, apresentar vigorosa evidência para a teoria evolucionária quanto às origens da humanidade, uma vez que a coleção de fósseis do país é mundialmente famosa.

O porta-voz do Ministério da Educação do país, Kennedy Buhere, diz que o conflito está diminuindo. Na sua visão, crenças tribais tradicionais, muitas vezes fundidas com o cristianismo ou o islamismo, geram um quadro em que são fomentadas as interpretações literais da criação. Entretanto, as congregações evangélicas do país, apesar de muito fortes, não questionam o currículo escolar, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, por exemplo.

A diversidade de explicações

As crianças quenianas também aprendem versões locais da criação, inclusive crenças de que a humanidade saiu de um formigueiro. O povo Kikuyu acredita que o criador (que vive no topo do Monte Quênia) fez o homem e lhe deu nove esposas. Já os criadores de gado Maasai dizem que suas vacas desceram do céu em uma corda quando o céu e a terra se separaram.

Hoje, professores como Maina alegam simplesmente apresentarem todas as versões possíveis aos alunos:

“Dizemos a elas que, de acordo com a ciência, foi assim que o homem surgiu, e então, de acordo com os estudos sociais — que incluem o que diferentes comunidades étnicas acreditam sobre a criação —, foi isto que aconteceu, e então, de acordo com a Bíblia, aconteceu desta maneira”.

Alunos de algumas escolas levam até 10 horas para chegarem ao museu; as crianças podem acordar até horas antes do amanhecer para uma visita como esta, e as estradas ficam cheias de ônibus.

Fonte: Mail & Guardian 

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This entry was posted on 29 de Outubro de 2013 by in Ciência e Tecnologia, Religião and tagged , , , , , , , .

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