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Traduzindo: Who ya gonna call? Gurubusters!

Quem você vai chamar? Gurubusters!

Por Amrit Dhillon

Na luta interminável contra a superstição e a fraude na Índia, defensores do racionalismo têm de usar todas as maneiras possíveis para derrotar os chamados homens sagrados no seu próprio jogo.

Homens sagrados, gurus, charlatões e profetas exploram a inocência de indianos comuns. Foto: Getty Images

Homens sagrados, gurus, charlatões e profetas exploram a inocência de indianos comuns. Foto: Getty Images

Diante das crianças da Escola Secundária Desu Madra, em Mohali, no estado indiano de Punjab, Satnam Singh Daun espalha seus apetrechos sobre a mesa: cachecóis e dinheiro que desaparecem, cartas, pós que pegam fogo, algumas cordas, fósforos, frascos e algodões. Ele parece um mágico pronto para começar uma apresentação na festa de aniversário de uma criança.

Mas os truques não são para entreter as crianças. Daun os usa para desmascarar os gurus, astrólogos, charlatões, profetas, leitores de mãos, vendedores de talismãs, curandeiros e trapaceiros que são tão populares na Índia.

As crianças, sentadas no chão sob as intensas luz solar e umidade que vêm depois de uma tempestade de monção, ouvem atentamente a Daun enquanto ele desdenha da superstição. Ele realiza os mesmos truques que são usados por homens sagrados para explorar a ingenuidade dos indianos e projetarem-se como possuidores de poderes sobrenaturais — fazendo dinheiro desaparecer ou transformando notas de 100 rúpias em notas de 500 rúpias, produzindo cinzas do nada, engolindo fogo.

“É porque eles são muito estúpidos para se tornarem professores, médicos ou cientistas, que os gurus se tornam astrólogos para enganar as pessoas”, diz Daun.

“Querem que vocês usem amuletos e confiem nas estrelas, ao invés de usarem sua razão. Estes homens sagrados são tontos sagrados trapaceando vocês. Sejam racionais, usem suas mentes”, diz Daun, enquanto um galo no chão da escola canta como se quisesse dizer “ouçam, ouçam”.

Daun é um de três homens de Mohali conhecidos como “gurubusters” [“caça-gurus”, em alusão aos “caça-fantasmas”, personagens do cinema e da TV]. Ele fala às crianças, acompanhado por seus dois colegas, para ensiná-las a recusarem a superstição e, em vez disso, serem racionais.

O gurubuster Satnam Singh Daun alerta as crianças de escolas indianas sobre os truques usados pelos chamados gurus. Foto: Getty Images

Daun é baixinho e robusto, e trabalha como agente da Amway. Seu co-gurubuster Harpreet Rora é um jovem magro que trabalha como jornalista. O terceiro é o fundador da filial de Mohali da Associação Racionalista Indiana, o forte e avuncular Jarnail Singh Kranti, professor primário aposentado. De um pequeno escritório, usando seus próprios recursos e seu tempo livre, o amável trio, lealmente apoiado por suas esposas, ataca fortemente os influentes gurus da Índia. Este é o quartel-general de uma missão solitária: promover a supremacia do racionalismo.

A superstição é uma indústria milionária na Índia. Dos mais pobres aos mais ricos, a predisposição à superstição está embutida nas redes neurais da maioria dos indianos. Escolher um cônjuge, marcar a data do casamento, arrumar um emprego, tentar ter um filho, curar um marido alcoólatra, ressuscitar um negócio falido, curar uma doença, encerrar a greve de uma fábrica — todos estes problemas requerem uma visita a um homem sagrado, por cujos serviços é paga uma fortuna.

A propensão a crer que algo místico resolverá seus problemas percorre todo o espectro social. Ex-primeiros-ministros consultaram astrólogos, que portavam colares de contas, quanto à data mais “auspiciosa” para uma eleição geral. Estrelas de Bollywood [nome pelo qual se conhece popularmente parte da indústria do cinema indiano] fazem oferendas nos santuários dos magos para garantir o sucesso de bilheteria.

Dada sua preferência pela discrição, indianos ricos preferem ter um guru dedicado à sua família; por vezes, este vive junto a eles, a fim de que possa estar disponível a qualquer hora.

“Tenho total fé no meu guru. Ele pode curar o câncer. Eu já vi. Saio de uma consulta com ele me sentindo leve e abençoado”, diz o exportador de peças de vestuário de Nova Délhi Rocky Verma, que recentemente pediu ao seu guru que sugerisse uma data para o noivado de seu filho.

Fale com as esposas dos magnatas e fica claro que sua fé no guru da família é cega. Renu Modi, colecionadora de arte e dona de galeria de Nova Délhi, é casada com um membro da família de empresários Modi, e confia totalmente em seu guru, Swami Chandra. “Não tomamos nenhuma decisão importante sem consultá-lo primeiro”, diz ela.

Na Rua Prithviraj, em Délhi, lar de muitos empresários ricos, Madhushree Birla, esposa de um descendente da dinastia Birla, se senta em uma sala de estar cheia de artefatos inestimáveis e fala sobre como confia em Patrick, um curandeiro cristão de Goa que, segundo ela, pode curar o câncer.

“Minha fé nele originou-se no dia em que meu irmão e minha cunhada se envolveram em um acidente de carro terrível perto de Nasik. Meu irmão teve as costelas quebradas e minha cunhada sofreu uma grave hemorragia interna.”

“Dois minutos depois de terem batido, eles ainda estavam caídos, em choque, mas apenas começavam a perceber o que havia acontecido quando Patrick ligou para o telefone deles. Ele havia visto tudo o que ocorreu e sabia quais ferimentos eles tinham sofrido mesmo estando bem longe, em Goa”, diz.

Este é o tipo de crença sobre o qual Daun gosta de derramar seu ácido sulfúrico. Conforme o sol fica mais alto no céu, ele ignora o calor e começa a avançar, perguntando às crianças: “Algum homem sagrado já inventou um medicamento ou avião? Ele pode impedir que qualquer um de vocês morra em um acidente de carro? Como ele pode ajudá-los a ir bem nas provas e a arrumar um bom emprego se ele mesmo não é nada além de um fracasso?”

Atrás de Daun está sua esposa, Neeraj. Ela lhe passa alguma coisa. Daun estoura uma bola de fogo dentro de sua boca, extraindo suspiros das crianças. Então, ele mostra a elas que é apenas cânfora queimando, a qual não pode machucar sua boca. Ele mergulha sua mão no óleo fervente, ileso, mostrando a elas mais tarde que ele havia previamente ensopado sua mão em óleo como isolamento térmico.

No final da conversa, as crianças voltam às salas de aula, tendo prometido a Daun que nunca mais sucumbiriam à superstição. Quando termina de distribuir os panfletos, o enérgico trio de gurubusters recolhe seus apetrechos, sobe nos seus scooters e se dirige a outra tarefa, em outra escola, para educar as crianças quanto à importância de ser racional.

A Associação Racionalista Indiana foi fundada em 1949, com os votos de sucesso do filósofo britânico Bertrand Russell. Seus primeiros membros pertenciam à elite educada. Ela raramente tem mais de 100 mil membros — em sua maioria, professores, estudantes e profissionais — mas eles têm sido vigorosos por publicarem panfletos e escarnecerem a propensão dos indianos às tolices supersticiosas.

Com o passar das décadas, suas filiais tentaram implementar nos indianos um temperamento científico através de debates, de conversas, do ridículo, do humor e dos desafios. A maior parte do seu tempo é gasta realizando os truques que os autointitulados homens sagrados adoram efetuar para convencer os indianos de seus poderes especiais e acumular bilhões de rúpias a partir da sua credulidade.

“As conferências de imprensa deles são hilárias porque eles engolem fogo, levitam (um truque que requer um cobertor e dois tacos de hóquei), caminham sobre a brasa (a pele não queima se você caminhar rápido o suficiente) e fazem estátuas ‘chorar’ (derretendo uma camada de cera que cobre um pequeno depósito de água)”, diz Neeraj Gaitonde, jornalista de Mumbai. “É a única forma de destruir a crença cega nos seus poderes especiais”.

Alguns charlatões são mais criativos que outros. Um deles costumava impressionar o público “criando” fogo derramando ghee (manteiga clarificada) nas cinzas e então “olhando fixamente” para ele até que a mistura pegasse fogo. Racionalistas-detetives descobriram que o ghee era glicerina e que as cinzas eram permanganato de potássio, e que as duas entram em combustão espontaneamente alguns minutos depois de serem combinados.

Os racionalistas da Índia adoram desafiar charlatões. Quando o conhecido guru da televisão Pandit Surinder Sharma gabou-se na TV de ter o poder de matar outro homem usando apenas seus poderes místicos, Sanal Edamaruku, presidente da Associação Racionalista Indiana (que está atualmente em um esconderijo na Filnândia; mais sobre isso a seguir) aceitou o desafio e convidou o guru a matá-lo no horário nobre da televisão.

O guru concordou e apareceu na televisão realizando diversos rituais com a intenção de matar Edamaruku. Milhões sintonizaram o show. O hocus pocus continuou por algum tempo. O homem sagrado amarrotou os cabelos do racionalista, pressionou sua cabeça e murmurou encantos. Horas depois, Edamaruku ainda estava vivo, zombando alegremente do matador frustrado.

Edamaruku, ex-jornalista, se tornou um ativista racionalista quando tinha 15 anos, após ver uma atleta local, com câncer de sangue, morrer porque sua família recusou o tratamento médico, preferindo um curandeiro. Agora, vive na Finlândia, tendo fugido da Índia depois que a Igreja Católica de Mumbai prestou queixa contra ele em abril de 2012, sob a lei de blasfêmia do país. Se condenado, ele enfrentaria três anos de cadeia.

O caso envolveu um crucifixo que gotejava água em uma igreja de Mumbai. Edamaruku descobriu que o gotejamento era causado por um vazamento de cisterna, que fazia com que a água atravessasse a parede na direção do crucifixo. Ele relatou suas conclusões na televisão e criticou a Igreja Católica por ser “anti-ciência”. Quando a igreja prestou queixa, ele fugiu.

A mesma sorte não teve o Dr. Narendra Dabholkar [e o leitor sabe o porquê], um eminente ativista anti-magia negra em Pune, perto de Mumbai, que foi assassinado em 20 de agosto. Conhecido por seu ativismo, de longa data, contra a superstição, Dabholkar, 70, foi morto a tiros durante sua caminhada matinal.

Dabholkar estimou que centenas de mulheres são mortas todos os anos após serem consideradas “bruxas” pelos chamados homens sagrados. Ele também apontou que muitas crianças eram mortas como parte de “sacrifícios humanos” ordenados por homens sagrados para resolver os problemas dos seus seguidores.

Os indianos ficaram chocados com o assassinato; alguns ficaram igualmente surpresos ao descobrirem que Dabholkar fazia lobby no governo provincial de Maharashtra para aprovar a Lei de Erradicação da Superstição e Anti-Magia Negra, que tornaria práticas supersticiosas ilegais.

Apesar de receber diversas ameaças de morte de grupos de direita hindus, Dabholkar recusou a proteção policial. Esses grupos acreditavam que ele estava atacando sua religião, e não que estava condenando a superstição em todas as religiões.

No entanto, as evidências sugerem que os charlatões hindus predominam (o hinduísmo é a maior religião da Índia), em parte, por não haver qualquer estrutura organizada na religião, nem uma hierarquia estabelecida, tornando fácil para qualquer um se considerar um guru e oferecer aconselhamento espiritual.

Invariavelmente, a maioria dos homens sagrados controversos que acabam no noticiário por acumularem milhões, possuírem frotas de Mercedes e Audis, por estarem envolvidos na ilegalidade da prostituição, ou por acusações de abuso sexual e estupro, é de hindus.

No mês passado, um dos principais homens sagrados, chamado Asaram Bapu, foi preso pela acusação de agredir sexualmente uma menina de 15 anos de idade. Mesmo assim, ver seu homem sagrado atrás das grades foi pouco para diminuir a fé dos seus defensores.

“Esses homens sagrados são como Jekyll e Hyde [uma referência aos personagens da literatura britânica Dr. Jekyll e Mr. Hyde]. Eles fazem muito trabalho social e comunitário, inicialmente, para ficarem populares, antes que comecem a gratificar a si próprios”, diz a Dra. Indira Sharma, presidente da Sociedade Psiquiátrica Indiana.

“Eles ajudam em casamentos, admissões escolares, tratamento médico. Então, quando são acusados de um crime, seus defensores não são afetados porque querem continuar a receber aquela ajuda, e é do seu interesse proteger o homem sagrado.”

Os gurubusters de Mohali, sempre alegres e enérgicos, ainda não receberam ameaças.

“Não vamos parar, particularmente no que concerne à educação infantil”, diz Harpreet Rora. “Queremos que os pequenos se tornem embaixadores da mudança. Eles têm de ir para casa e dizer a seus pais que parem com essa bobagem”.

O custo da superstição na Índia é alto. Por todo o país, pendurados nas lojas, casas, oficinas e veículos, estão cachos de pimentas verdes e limões amarrados para afastar o mau-olhado e trazer boa sorte. Cachos frescos são pendurados todos os dias.

“Você sabe que os indianos gastam 104 milhões de rúpias (2,4 milhões de dólares) por ano comprando pimentas e limões?” pergunta Jarnail Singh Kranti.

“No nosso hospital local, há um astrólogo para ‘ajudar’ os pacientes se o tratamento médico falhar. Isto precisa parar. Precisamos começar a confiar na ciência e na lógica para nos movermos em direção ao mundo moderno.”

É de interesse dos políticos indianos, acrescenta, manter o povo atolado na superstição para que os pobres não comecem a se perguntar “por que somos pobres?”

Antes de fechar o escritório, ele aponta para um grande cartaz pendurado na parede. Ele oferece uma recompensa de 2,3 milhões de rúpias (39 mil dólares) a qualquer homem sagrado que puder realizar uma dentre 23 façanhas, incluindo: ficar de pé sobre blocos em brasa sem que isto lhes provoque bolhas nos pés; fazer com que um membro amputado cresça, mesmo que uma polegada, através da oração, poderes espirituais, usando cinzas sagradas, ou dando bênçãos; andar sobre a água; sair de um ambiente trancado utilizando poder divino; ou converter água em petróleo.

Enquanto lê a lista, Kranti ri. “Não temos 2,3 milhões de rúpias. Mas não esperamos que alguém vença, então estamos a salvo”, diz.

Fonte: The Age

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This entry was posted on 2 de Novembro de 2013 by in Educação, Religião and tagged , , , , , , , , , , .

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