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Traduzindo: Science Doesn’t Want To Take God Away From You

A Ciência Não Quer Tirar Deus De Você

Por Marcelo Gleiser*

A ciência pode inspirar o mesmo nível de paixão que a religião? Foto: Mauricio Lima/AFP/Getty Images

A ciência pode inspirar o mesmo nível de paixão que a religião? Foto: Mauricio Lima/AFP/Getty Images

Uma vez, fui convidado a dar uma entrevista ao vivo a uma estação de rádio em Brasília, capital do Brasil. A entrevista ocorreu no horário de pico, no muito movimentado terminal de ônibus da cidade, onde trabalhadores pobres chegam, vindos das áreas rurais, para realizar todo tipo de trabalho na cidade, da limpeza das ruas ao trabalho nas fábricas e lares.

A experiência me marcaria pelo resto da vida e estabeleceria um novo objetivo profissional que eu não havia previsto mais cedo na minha carreira: trazer a ciência ao maior número de pessoas possível.

O entrevistador me fez perguntas sobre a visão científica do fim do mundo, inspirado por um livro que eu acabara de publicar (The Prophet and the Astronomer: Apocalyptic Science and the End of the World). Há muitas formas pelas quais a ciência pode abordar esta questão. Podemos ver, pelos efeitos devastadores do Tufão Haiyan, que as forças da natureza estão além do nosso controle, mesmo que nos orgulhemos de “dominarmos” o mundo ao nosso redor.

Mas o foco do meu livro foram os eventos celestiais cataclísmicos e como eles inspiraram ambas, as narrativas religiosas e a pesquisa científica, no passado e no presente. Em particular, repare nas muitas ocasiões nas quais as estrelas, o fogo e o enxofre caem do céu na Bíblia, tanto no Antigo (p. ex., Livro de Daniel, Sodoma e Gomorra) quanto no Novo Testamento (p. ex., Apocalipse de João), ou em como os celtas acreditavam que os céus cairiam sobre suas cabeças no final de um ciclo.

Voltando à entrevista, mencionei como a colisão com um asteroide de 6 milhas de diâmetro, que atingiu a Península de Yucatan, no atual México, provocou a extinção dos dinossauros há 65 milhões de anos. Realcei o modo como esse evento mudou a história da vida na Terra, libertando os pequenos mamíferos da época da pressão dos predadores, e culminando com a evolução dos humanos. Meu ponto era o de que não existe a necessidade de intervenção divina para explicar esses episódios essenciais nas nossas histórias planetária e coletiva.

Foi então que uma mão se ergueu. Um homem baixo, com roupas rasgadas e manchas de graxa no rosto, perguntou: “Então o doutor quer tirar até Deus de nós?”

Eu congelei. O desespero na voz daquele homem era evidente. Ele se sentiu traído. Sua fé era a única coisa na qual ele se apoiava, a única coisa que lhe dava forças para voltar àquela estação de ônibus, todos os dias, para trabalhar por um salário mínimo humilhantemente baixo.

Se eu tirasse Deus e pusesse em seu lugar a argumentação racional da ciência, com a sua validação empírica, o que isto significaria para este homem? Como isto o ajudaria a levar sua vida adiante? Como a ciência poderia ensiná-lo a lidar com a vida em um mundo sem a magia da crença no sobrenatural?

Eu percebi, então, quão longe os cientistas estão das necessidades da maioria das pessoas; quão distante nosso discurso está daqueles que ainda não procuram por respostas na ciência, como certamente a maior parte dos que leem este artigo já faz. E percebi que, a fim de alcançar um público mais amplo, para trazer as maravilhas da ciência a uma parcela muito maior da população, nós precisamos dar início à educação científica nos mais jovens.

Precisamos preencher essa educação com ao fascínio da descoberta. Temos que tomar a mesma paixão que as pessoas dirigem à sua fé e usá-la para alimentar a curiosidade sobre o mundo natural. Temos de ensinar que a ciência tem uma dimensão espiritual; não no sentido do sobrenaturalismo, mas no sentido da maneira como ela nos conecta com algo maior do que somos.

Também me dei conta de como era completamente fútil proclamar o valor e a maravilha da ciência a alguém cuja fé é a principal motivação por trás de tudo o que ele, ou ela, faz.

Eles perguntariam naturalmente: “Por que eu deveria acreditar mais no que você diz, quanto ao universo ter 13,8 bilhões de anos de idade, do que acredito que Jesus é o filho de Deus? Como eu acredito na sua verdade?”

Nós temos uma enorme tarefa à nossa frente, se realmente quisermos fazer com que a educação científica seja transformadora.

Respondi ao homem, com uma voz trêmula, que a ciência não quer tirar Deus das pessoas, mesmo que alguns cientistas queiram; que a ciência explica como o mundo funciona, iluminando as maravilhas do universo — grandes e pequenas — para que todos vejam e apreciem. Continuei, explicando que a pesquisa científica é uma iniciativa apaixonada, uma que nos deixa mais perto da natureza, dos mistérios que atualmente enfrentamos, conforme tentamos entender mais e mais o universo.

O homem sorriu. Ele não disse nada. Mas estou certo de que ele viu, no ímpeto científico por compreender, a mesma paixão que o guiou à sua fé.

Deixei a entrevista e fiz uma longa caminhada em volta de um lago, pensando em Einstein e em como ele acreditava que a iniciativa científica era a única religião verdadeira, com sua devoção à compreensão do que pudermos da natureza. É um esforço guiado pela admiração e repleto de humildade.

*Marcelo Gleiser é físico, astrônomo, professor e escritor. Nascido no Rio de Janeiro, em 1959, bacharelou-se em física pela Pontifícia Universidade Católica, obteve seu mestrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e seu doutorado pelo King’s College de Londres. Além dos vários livros (com destaque para A Dança do Universo, Companhia das Letras, 1997), Gleiser escreve uma coluna no jornal Folha de S. Paulo.

Fonte: npr.org (National Public Radio)

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This entry was posted on 14 de Novembro de 2013 by in Ciência e Tecnologia, Religião and tagged , , , , , , , .

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