Make It Clear Brasil

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A palavra “fé”, na Religião e na Ciência

Ontem (14), o Make It Clear Brasil lhes apresentou o artigo “A Ciência Não Quer Tirar Deus De Você“, de autoria do físico brasileiro Marcelo Gleiser. No artigo em questão, o autor ressaltou a importância da educação científica para que a sociedade compreenda o modo de pensar naturalista e, com o tempo, se adeque à realidade dos paradigmas científicos atuais que, muitas vezes, se chocam com as ilustrações sobrenaturais do universo. A quem ainda não leu, fica a dica!

Continuando a tônica da discussão epistemológica que divide fé e razão, o artigo que traduzo hoje foi originalmente escrito por Jerry Coyne, professor de ecologia e evolução da Universidade de Chicago, autor do livro Why Evolution Is True e do blog homônimo. Desejo a todos uma boa leitura e um ótimo feriado!

Sem Fé na Ciência

Por Jerry A. Coyne

Ilustração de Charlie Powell

Ilustração de Charlie Powell

Uma tática comum entre os que alegam que a ciência e a religião são compatíveis, é a de argumentar que a ciência, assim como a religião, repousa na fé: fé na precisão do que observamos, nas leis da natureza, ou no valor da razão. Daniel Sarewitz, diretor de um centro de políticas para a ciência na Arizona State University, e eventual colaborador da Slate, escreveu o seguinte a respeito do bóson de Higgs nas páginas da Nature, um dos mais respeitados periódicos científicos: “Para aqueles que não conseguem acompanhar a matemática, a crença no Higgs é um ato de fé, não de racionalidade”.

Tais afirmações implicam que ciência e religião não são tão diferentes, porque ambas buscam a verdade e usam a fé para encontrá-la. De fato, a ciência é frequentemente descrita como um tipo de religião.

Mas isto está errado, pois a “fé” que temos na ciência é completamente distinta da fé que os fiéis têm em Deus e nos dogmas do seu credo. Para ver isto, considere as quatro afirmações a seguir:

“Tenho fé de que, porque aceito Jesus como meu salvador, vou me unir a meus amigos e familiares no Céu.”

“Minha fé me diz que o Messias ainda não veio, mas, um dia, virá.”

“Estou com uma infecção na garganta [faringite estreptocócica], mas tenho fé de que esta penicilina irá removê-la.”

“Tenho fé de que, quando eu me martirizar por Alá, receberei 72 virgens no Paraíso.”

Todas elas usam a palavra , mas uma o faz diferentemente. As três alegações religiosas (cristã, judaica e islâmica, respectivamente) representam a fé como definida pelo filósofo Walter Kaufmann: “crença intensa, normalmente confiante, que não é baseada em evidências suficientes para exigir o consentimento de todas as pessoas razoáveis”. Na verdade, não há evidências além da revelação, autoridade e das escrituras para apoiar as afirmações religiosas acima, e a maior parte dos fiéis do mundo rejeitaria ao menos uma delas. De um modo direto, tal fé envolve fingir saber coisas que não se sabe. Por trás, é um desejo, como claramente expressado em Hebreus 11:1: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem”.

Em contraste, a terceira afirmação confia em evidências: a penicilina, quase que invariavelmente, mata a bactéria Streptococcus. Nos casos como este, a palavra fé não significa “crença sem boas evidências”, mas “confiança derivada de testes científicos e experiências repetidas e documentadas”.

Você tem fé (i.e., confiança) de que o Sol nascerá amanhã, porque ele sempre nasceu, e não há evidência de que a Terra parou de girar ou de que o Sol se esgotou. Você tem fé na sua médica, pois, presumivelmente, ela tratou você e outros com sucesso, e você sabe que aquilo que ela prescreve é testado cientificamente. Você não iria a um xamã ou a um curandeiro espiritual por causa de uma faringite estreptocócica — a menos que queira jogar seu dinheiro fora.

A fusão da fé enquanto “crença sem evidências” com a fé enquanto “confiança justificada” é simplesmente um truque de palavras usado para dar suporte à religião. De fato, você nunca vai ouvir um cientista dizer “Tenho fé na evolução”, ou “Tenho fé nos elétrons”. Tal linguagem não nos é apenas estranha, como conhecemos muito bem a maneira como essas palavras podem ser empregadas incorretamente em nome da religião.

E quanto ao respeito, por parte do público e dos cientistas, à autoridade? Seria isso um tipo de fé? Não mesmo. Quando Richard Dawkins fala ou escreve sobre a evolução, ou quando Lisa Randall fala sobre a física, cientistas de outros campos — e o público — têm a confiança de que eles estão certos. Porém, isto também se baseia na dúvida e nas críticas inerentes à ciência (e não à religião): a compreensão de que a competência deles foi continuamente verificada por outros biólogos ou físicos. Por outro lado, as alegações de um sacerdote sobre Deus não são mais demonstráveis do que as de qualquer outra pessoa. Não sabemos mais sobre o divino, agora, do que sabíamos há 1.000 anos.

O constante escrutínio dos nossos pares garante que a ciência seja amplamente auto-corretiva, de forma que podemos, realmente, abordar a verdade sobre nosso universo. Quando Sarewitz afirmou que a “crença” no bóson de Higgs era um ato de fé, ao invés de racionalidade, e quando ele a comparou à crença hindu em um oceano de leite que sustenta seus deuses, ele estava basicamente errado. Há evidências fortes para o bóson de Higgs, cuja existência foi confirmada, no ano passado, por duas equipes independentes, utilizando um acelerador gigantesco e rigorosas análises estatísticas. Mas não há, e nunca haverá, qualquer evidência para este oceano de leite.

Os cientistas não dão credibilidade ou autoridade especiais a livros, também, exceto na medida em que eles apresentem teorias compreensíveis, novas análises, ou verdades verificadas. Quando eu me tornei biólogo evolutivo, não me foi exigido que prestasse juramento à verdade de Darwin com a minha mão sobre A Origem das Espécies. De fato, esse livro estava errado em vários aspectos, inclusive sua falaciosa teoria da genética. Em contraste, muitos crentes precisam jurar fidelidade regularmente a alegações religiosas imutáveis e questionáveis (pense nos Credos Niceno e de Atanásio), e muitos ministros juram defender a doutrina da igreja.

Então, os cientistas não têm uma fé para-religiosa em autoridades, livros ou proposições sem suporte empírico. Nós temos fé em qualquer coisa? Dizem que as leis da física e a razão seriam dois objetos da fé científica. Fazer ciência, dizem, requer a fé sem evidências na “regularidade da natureza”, em um “conjunto inexplicado de leis da física”, bem como no valor da razão na determinação da verdade.

Ambas as alegações estão erradas.

A regularidade da natureza — o conjunto das chamadas leis naturais — não é uma suposição, mas uma observação. É logicamente possível que a velocidade da luz possa variar de lugar para lugar, e enquanto nós teríamos de ajustar nossas teorias para explicar isso, ou dispensar totalmente certas teorias, isto não seria um desastre. Outras leis naturais, como a das massas relativas de nêutrons e prótons, provavelmente não podem ser violadas no nosso universo. Não estaríamos aqui para observá-las se elas pudessem — nossos corpos dependem das regularidades da química e da física. Tomamos a natureza como a encontramos e, por vezes, ela se comporta previsivelmente.

E quanto à fé na razão? Errado novamente. A razão — o hábito de ser crítico, lógico, e de aprender com a experiência — não é uma suposição a priori, mas uma ferramenta que tem dado provas de funcionar. É o que produziu antibióticos, computadores, e a nossa habilidade de sequenciar o DNA. Não temos fé na razão; usamo-la porque, ao contrário da revelação, ela produz resultados e entendimento. Mesmo discutir por que devemos usar a razão, emprega a razão!

Finalmente, não seria a ciência, pelo menos, baseada na fé de que é bom conhecer a verdade? Dificilmente. A noção de que o conhecimento é melhor do que a ignorância não é uma fé para-religiosa, mas uma preferência: preferimos saber o que é certo porque o que está errado, normalmente, não funciona. Nós não descrevemos a canalização ou a mecânica de automóveis como se repousassem na fé de que é melhor ter seus encanamentos e carros em ordem, mesmo assim, as pessoas nestas profissões também dependem de encontrar a verdade.

Pode-se expulsar o rumor da “ciência enquanto fé” em um único parágrafo, e darei a honra a Richard Dawkins:

Há uma diferença muito, muito importante entre sentir-se firme, até mesmo apaixonado, quanto a alguma coisa porque pensamos sobre ela e examinamos as evidências dela, por um lado, e sentir-se firme quanto a alguma coisa porque ela nos foi internamente revelada, ou foi internamente revelada a outro alguém na história, e subsequentemente consagrada pela tradição. Há toda a diferença do mundo entre uma crença que alguém está preparado para defender citando evidências e a lógica, e uma crença que é apoiada por nada mais que tradição, autoridade, ou revelação.

Então, na próxima vez em que você ouvir alguém ser descrito como uma “pessoa de fé”, lembre que, apesar disso ter o propósito de elogiar, é na realidade um insulto.

Fonte: Slate

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This entry was posted on 15 de Novembro de 2013 by in Ciência e Tecnologia, Religião and tagged , , , , , , , , .

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