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A Guerra Fria das mulheres

Dos modos de se vestir acima, um provocou uma forma de agressão indireta; o outro, mal chamou a atenção. Consegue adivinhar? Foto: John Tierney

Dos modos de se vestir acima, um provocou uma forma de agressão indireta; o outro, mal chamou a atenção. Consegue adivinhar? Foto: John Tierney

Quão agressiva pode ser a fêmea humana? Há três décadas, a antropóloga Sarah B. Hrdy fez um levantamento da literatura científica a respeito do tema e concluiu que “o componente competitivo na natureza da mulher permanece fortuito, intuitivamente percebido, mas não confirmado pela ciência”.

A ciência percorreu um longo caminho desde então, conforme a Dra. Hrdy observa na introdução que escreveu para uma edição recente do Philosophical Transactions of the Royal Society inteiramente dedicada à problemática da agressão feminina. Ela credita a quantidade “assombrosa” de novas evidências, em parte, a técnicas aprimoradas de pesquisa e, em parte, à entrada de tantas mulheres em campos científicos tradicionalmente dominados pelos homens.

A existência da competição feminina pode parecer óbvia a qualquer um que já tenha frequentado uma cantina de colégio ou um bar de solteiros, porém, analisá-la tem sido complicado, pois ela tende a ser mais sutil e indireta — e bem menos violenta — do que a variedade masculina. Tendo os pesquisadores a observado atentamente, eles dizem que esta “competição intra-sexual” é o fator mais importante por trás das pressões que as jovens sentem a fim de que se adequem às normas de conduta sexual e aparência física.

As velhas dúvidas que permeavam a concorrência feminina provinham parcialmente de uma análise evolutiva das chances reprodutivas em antigas sociedades poligínicas (onde a poligamia consistia no fato de um macho ter acesso a várias fêmeas, e nunca o contrário), nas quais alguns homens eram deixados solteiros porque os machos dominantes tinham várias esposas. Então, os homens deveriam competir para terem uma chance de se reproduzirem, enquanto que virtualmente todas as mulheres tinham acesso à reprodução.

No entanto, mesmo nessas sociedades, as mulheres não eram troféus passivos para os machos vitoriosos. Elas tinham seus próprios incentivos para competirem umas contra as outras por parceiros mais cobiçados e mais recursos para seus filhos. Agora que a maioria das pessoas vive em sociedades monogâmicas, a maior parte das mulheres enfrenta as mesmas probabilidades que os homens. Na verdade, elas enfrentam probabilidades piores em alguns locais, como nos muitos campi universitários em que há mais mulheres do que homens.

Para testar como as mulheres estudantes reagem a uma rival, pesquisadoras levaram pares delas a um laboratório da Universidade McMaster, no Canadá, para o que aparentava ser uma discussão acerca das amizades femininas. Mas o experimento real começava quando uma outra jovem entrava na sala perguntando onde poderia encontrar uma das cientistas.

Esta outra mulher havia sido escolhida pelas pesquisadoras, Tracy Vaillancourt e Aanchal Sharma, porque “incorporava qualidades consideradas atraentes de uma perspectiva evolutiva”, isto é, uma “baixa relação cintura/quadril, pele limpa, seios grandes”. Algumas vezes, ela vestia uma camiseta e calças jeans; em outras, uma blusa justa e decotada e uma saia curta.

De jeans, ela chamou pouca atenção e nenhum comentário negativo foi feito por parte das estudantes, cujas reações foram secretamente gravadas durante o encontro e depois de a mulher deixar a sala. Porém, quando ela vestia a outra roupa, praticamente todas as estudantes reagiram com hostilidade.

Elas a fitavam, viam-na de cima a baixo, viravam os olhos e, por vezes, demonstravam uma raiva indiscutível. Uma das participantes chegou a perguntar à moça, com repulsa: “Que [palavrão] é essa?”

A maior parte da agressão, no entanto, ocorreu depois que ela deixou a sala. Então, as estudantes riam dela e questionavam suas intenções. Uma estudante sugeriu que ela estava vestida daquela maneira para fazer sexo com um professor; outra disse que seus seios “estavam a ponto de pular para fora”.

Os resultados do experimento concordam com as evidências de que esta forma de agressão indireta, ao estilo “menina má”, é mais utilizada por adolescentes e jovens do que por mulheres mais velhas, que têm menos incentivos para maldizer as rivais, uma vez que já estejam casadas. Outros estudos mostraram que, quanto mais atraente for uma adolescente ou mulher, maior será a probabilidade de que ela se torne alvo de agressões indiretas vindas das outras mulheres.

“As mulheres são, de fato, bastante capazes de agredir as demais, especialmente as mulheres que encaram como rivais”, disse a Dra. Vaillancourt, psicóloga da Universidade de Ottawa. “A pesquisa também mostra que a repressão à sexualidade feminina vem das mulheres, e não necessariamente dos homens”.

Os homens são frequentemente acusados de estigmatizar a promiscuidade feminina, pois possuem um incentivo darwiniano no sentido de evitar que suas parceiras mantenham relações com outros homens. Mas eles também têm um incentivo darwiniano para encorajar outras mulheres a se comportarem promiscuamente. Vaillancourt disse que seu experimento, junto a outros estudos, sugere que o estigma é realizado, principalmente, por mulheres.

“O sexo é cobiçado pelos homens”, afirmou. “Em concordância com isto, as mulheres limitam o acesso como forma de manter uma vantagem na negociação deste recurso. As mulheres que tornam o sexo prontamente acessível comprometem a posição de poder do grupo, daí o porquê de muitas mulheres serem particularmente intolerantes com relação àquelas que são, ou parecem ser, promíscuas”.

A agressividade indireta pode cobrar um preço das mulheres que estão condenadas ao ostracismo, ou se sentem pressionadas na direção do cumprimento de padrões inatingíveis, como a obtenção de um corpo esbelto funciona em diversas sociedades modernas. Estudos demonstraram que a forma ideal de uma mulher deve ser mais magra do que a média — e mais magra do que aquilo que os homens consideram que seja ideal. A responsabilidade por tal pressão é geralmente posta sobre as modelos esbeltas que figuram nas capas de revistas e na televisão, mas Christopher J. Ferguson e outros pesquisadores dizem que isto resulta, principalmente, da competição no seu próprio grupo, e não da mídia.

Ferguson, psicólogo da Stetson University, na Flórida, atenta para o fato de, até certo ponto, a mídia apenas refletir “tendências que estão em voga na sociedade, sem criá-las”. Ele descobriu que a insatisfação feminina com o corpo não se correlaciona com o que as mulheres assistiam na televisão, nem mesmo com programas de TV que elas viram no laboratório: assistir às atrizes esbeltas da série Scrubs não induzia mais sentimentos de inferioridade do que assistir à — não tão esbelta — estrela da antiga série Roseanne.

Entretanto, ele descobriu que as mulheres estavam mais sujeitas a se sentirem inferiores quando se comparavam com colegas nos seus próprios círculos sociais, ou quando estavam em uma sala com uma magra desconhecida — como a assistente do Dr. Ferguson que conduziu um experimento com estudantes universitárias. Quando ela usou maquiagem e trajou roupas adequadas ao ambiente empresarial, as estudantes se sentiram menos satisfeitas com seus próprios corpos do que quando ela vestiu roupas largadas e não usou maquiagem, e ainda se sentiram inferiores quando havia um homem atraente na sala junto a ela.

“A competição sexual entre as fêmeas parece crescer devido a circunstâncias que tendem a ser particularmente comuns nas sociedades prósperas”, disse o Dr. Ferguson.

Em vilarejos tradicionais, as pessoas se casam, quando ainda jovens, com alguém próximo, mas os jovens homens e mulheres das sociedades modernas são livres para adiar o casamento enquanto procuram por opções melhores. O resultado é a maior disputa, já que há muitos rivais — e não há mais nenhuma dúvida científica de que ambos os sexos entram nela para vencer.

Fonte: The New York Times

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This entry was posted on 20 de Novembro de 2013 by in Psicologia and tagged , , , , .

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