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Traduzindo: After Coming Out As An Atheist, I Was Shunned by My Mother

Saudações, leitores! Hoje trago um texto de autoria de Catherine Dunphy, diretora executiva do Clergy Project, comunidade que abriga ex-líderes religiosos que deixaram para trás quaisquer tipos de crenças sobrenaturais. No artigo, Catherine faz um desabafo emocionado: da antiga devoção ao catolicismo, ela passa ao ateísmo, passo que muitas pessoas deram, mas que deixa cicatrizes, principalmente se o apoio da família e dos amigos for escasso — caso da autora.

Espero que a leitura conscientize, sensibilize e, talvez, reate laços de amor e amizade perdidos no tempo graças à intolerância.

Após me revelar ateia, fui rejeitada pela minha mãe

Por Catherine Dunphy

Catherine Dunphy, diretora executiva do Clergy Project. Crédito: clergyproject.org

Catherine Dunphy, diretora executiva do Clergy Project. Crédito: clergyproject.org

Pensei muito, nos últimos dois anos, a respeito do conceito de rejeição em famílias religiosas. Isto está no fundo da minha mente há um longo tempo, uma consequência que eu sabia que finalmente teria de enfrentar quando minha mãe descobrisse o Clergy Project. Eu sabia que os interesses seriam conflitantes e que as crenças religiosas da minha mãe seriam, basicamente, um obstáculo ao nosso relacionamento.

Em muitas ocasiões, durante a última década, eu conversei brevemente com ela acerca da minha carência de fé. Apesar de nunca ter mentido a ela, admito que tentei minimizar meu ativismo ateu. Meus esforços eram no sentido de assegurar a transparência, mas, também, limitar os detalhes e a frequência destas conversas, de forma que nós pudéssemos construir um espaço onde nosso relacionamento pudesse prosperar. Foi, pensara eu, uma trégua feliz, mas desconfortável.

Infelizmente, esta estratégia desabou há algumas semanas, pouco antes do meu aniversário.

Uma coisa que você deve saber sobre a minha mãe é que ela é uma pessoa profundamente religiosa — sua fidelidade à ortodoxia Católica Romana é consistente; sua fé, inabalável, e sua exigência de capitulação é absoluta. Crescer neste lar católico foi um exercício de limites extremos. A scala naturae, ou “cadeia dos seres”, ditava que meus pais — em particular, minha mãe — tinham absoluta autoridade sobre seus filhos. A única autoridade à qual minha mãe se submetia era a da Igreja e, portanto, a de Deus.

Enquanto crianças, eu não sabia que orar o rosário de joelhos toda noite era um evento incomum, que fazer novenas não era uma atividade a ser realizada durante as horas livres, e que outras crianças não sentiam vergonha e culpa pela crucificação e morte de Jesus. Em todos os aspectos, eu era uma criança doutrinada.

Lembro-me da sensação das contas de vidro do rosário entre os meus dedos. A natureza repetitiva da oração em forma de chamado e resposta era calmante. O rosário frequentemente se rompia conforme eu segurava as contas nas mãos, concentrada na oração. Minha mente e meu coração estavam focados na contrição enquanto eu buscava a presença tranquilizadora da mão de Deus com cada ave-maria repetida.

Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.

Eu pedia que a Santa Mãe intercedesse em meu nome, apesar do meu desmerecimento, e sabia que a única salvação para o meu pecado era a penitência. Tristemente, este padrão de extrema fidelidade religiosa me perseguiu até que entrei na faculdade e comecei a estudar Teologia. Vagarosamente, a razão começou a infiltrar a visão de mundo medieval na qual eu havia sido criada. A vida lá fora era, pela primeira vez, intelectualmente estimulante, excitante e assustadora. Minha transformação, de teísta a ateísta, levou muitos anos e encarnações, mas uma ameaça constante aos meus desenvolvimento pessoal e crescimento intelectual era a interpretação e a crítica da minha mãe.

Apesar disso tudo, eu confrontei o medo honestamente e disse a ela que já não era mais uma fiel antes de ter completado meu mestrado. Dada a discussão limitada ao longo dos anos, pensei que o silêncio dela fosse a expressão do seu compromisso com nosso relacionamento. Infelizmente, agora acho que ela apenas compreendeu mal e estava esperando pelo momento certo de me enfrentar.

Um dia antes do meu aniversário, minha mãe me levou para jantar, só nós duas. Eu esperava uma conversa descontraída sobre ficar mais velha, mudanças da vida, etc. Mas não foi isto o que aconteceu.

Quase imediatamente após fazermos os pedidos, ela passou à conversação sobre moralidade. Eu tentei distraí-la e minimizar seu tom antagônico, mas isto falhou, já que ela focou asperamente minhas transgressões liberais e minha rejeição à ortodoxia católica. Ficou claro rapidamente que ela estava furiosa e que havia discutido minha apostasia com mais alguém — provavelmente um padre. Na sua opinião, eu não tinha recebido o “tipo certo de treinamento teológico”, e minha falta de fé era culpa dos meus educadores. Tentei dissuadi-la desta conversa, reduzir esta última e começar algo novo, mas ela se recusou. Minhas ideias e valores eram contrários ao catolicismo, continuou a crítica. De acordo com ela, minha família e eu éramos imorais, decrépitos e ateus. A pior transgressão, na opinião dela, era a de que minhas ações eram uma afronta ao seu status, e que eu lhe devia a decência de voltar à fé. Esforcei-me para apaziguá-la sem comprometer minha integridade, porém, infelizmente, ela interpretou isso como a continuação do meu “comportamento repugnante e desrespeitoso”. Tentei, por diversas vezes, negociar um terreno comum, mas, depois de ser confrontada por dramatizações continuamente intensificadas, nas quais ela me caracterizava como “o demônio” e declarava que meu esposo e eu somos “imorais”, eu reconheci o duro fato de que sua fé era mais importante para ela do que nosso relacionamento.

Eu não sou o único membro do Clergy Project — ou na vasta comunidade ateísta — que passou por este tipo de reação de um familiar com relação à sua descrença. O impacto nos relacionamentos pessoais é um dos maiores desestímulos para os membros do Clergy Project que se revelam ateus. É inocente subestimar a motivação que alguém sente para sustentar relacionamentos muito importantes. É um legado triste para o poder da doutrinação religiosa que alguns fiéis sacrifiquem relacionamentos porque não querem, ou não conseguem, reconhecer que uma mudança na crença não altera irrevogavelmente a pessoa que eles amam.

Para os membros do Clergy Project, e para ateus que têm tido conflitos com familiares religiosos, a dor da rejeição permanece, mas a habilidade de lidar com ela pode ser reforçada pelo apoio de uma comunidade de colegas. Minha mãe me vê como uma estranha, e esta percepção, apesar de artificial, delineia o fim do nosso relacionamento — o que não significa que eu consiga superá-lo.

Dói reconhecer o papel que a religião e a doutrinação religiosa tiveram na minha vida pessoal e nos meus relacionamentos importantes. Mesmo assim, indo adiante, posso apenas lamentar, aceitar e me recusar a permitir que a disfunção religiosa permeie a minha gratidão pela minha vida, minha família e minha comunidade.

Fonte: Patheos.com

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This entry was posted on 29 de Novembro de 2013 by in Ateísmo and tagged , , , .

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