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Traduzindo: Why Do We Age? A 46-Species Comparison

O microscópico animal de água doce Hydra magnipapillata pode viver estimados 1.400 anos, e é fértil por toda a vida. Foto: Ralf Schaible

O microscópico animal de água doce Hydra magnipapillata pode viver estimados 1.400 anos, e é fértil por toda a vida. Foto: Ralf Schaible

Por Que Envelhecemos? Uma Comparação Entre 46 Espécies

Por Virginia Hughes

O porquê de envelhecermos é uma questão evolutiva complicada. Um conjunto completo de DNA reside em cada uma de nossas células, afinal, permitindo que a maioria delas se replique continuamente. Por que todos os tecidos não se regeneram para sempre? Isso não seria evolutivamente vantajoso?

Desde o começo dos anos 1950, biólogos evolutivos têm elaborado algumas explicações, todas elas se reduzindo a isto: conforme ficamos mais velhos, nossa fertilidade declina, e nossa probabilidade de morrer  — por uma colisão com um ônibus, luta de espadas, doença, não importa — aumenta. Essa combinação indica que as bases genéticas do envelhecimento, quaisquer sejam elas, não se revelam até depois de nos reproduzirmos. Para usar o jargão da biologia evolutiva, elas não estão sujeitas à pressão seletiva. E isto significa que a senescência, como escreveu W. D. Hamilton, em 1966, “é um produto inevitável da evolução”.

Exceto quando não é.

Hoje [08/10] na Nature, o biólogo evolutivo Owen Jones e seus colegas publicaram uma comparação pioneira dos padrões de envelhecimento de humanos e 45 outras espécies. Para a gente (eu mesmo incluída) que tende a ter uma visão da biologia centrada nas pessoas, o artigo é um passeio louco e divertido. Com certeza, algumas espécies são como nós, com a fertilidade decrescendo e a mortalidade subindo acentuadamente com o tempo. Mas várias espécies mostram padrões diferentes — estranhamente diferentes. Alguns organismos são o oposto dos humanos, tornando mais provável a reprodução e menos provável a morte a cada ano que passa. Outras mostram um pico em ambos, fertilidade e mortalidade, na velhice. Outras, ainda, não demonstram qualquer mudança na fertilidade ou na mortalidade por toda a vida.

Essa diversidade soará surpreendente à maior parte das pessoas que trabalham com demografia humana. “Somos um pouco míopes. Achamos que tudo precisa se comportar da mesma forma que nós”, diz Jones, professor adjunto de biologia na Universidade da Dinamarca do Sul. “Mas se você falar com alguém que trabalha com peixes ou crocodilos, descobrirá que eles provavelmente não ficarão tão surpresos”.

O mais interessante para Jones não é apenas a grande diversidade encontrada na árvore da vida, mas os padrões ocultos nela. Seu estudo descobriu, por exemplo, que a maioria dos vertebrados apresenta padrões semelhantes, ao passo que as plantas são mais variáveis. “Então, você começa a se perguntar, por que esses padrões são como são?”, diz. “Este artigo provavelmente faz mais perguntas do que responde”.

Esta ampla comparação não exigiu equipamentos de tecnologia particularmente alta; ele poderia, possivelmente, ter sido feito há uma década, se não antes. Mas ninguém havia feito. Um desafio foi o de que ele exigiu um mergulho na literatura para a) encontrar os dados brutos sobre todas essas espécies, e b) entrar em contato com os pesquisadores que conduziram o trabalho de campo, para ver se eles gostariam de compartilhá-lo.

Depois de reunir todos os dados, houve o problema de padronizá-los. Taxas de mortalidade e fertilidade de diversos organismos podem diferir em ordens de magnitude. Além do mais, para algumas espécies — como o mangue-branco, a rã-de-pernas-vermelhas, e o caranguejo-ermitão — estes dados vêm de estágios definidos de desenvolvimento, ao invés de toda a duração de suas vidas. Jones contornou esses obstáculos definindo números de “mortalidade relativa” e “fertilidade relativa” para cada espécie, calculados através da divisão entre a taxa de fertilidade, ou mortalidade, em determinada idade, pela taxa média evidenciada no total da vida do organismo. Isto permite comparações fáceis entre espécies, olhando-se apenas para os formatos das curvas.

“Isto é o mais convincente sobre ele”, diz David Reznick, professor distinto de biologia da Universidade da California em Riverside, que não esteve envolvido no novo estudo. “Eles elaboraram uma maneira de colocar tudo na mesma escala, então, podem ser percebidos padrões que nunca haviam sido vistos antes”.

O estudo mostra, por exemplo, que a maioria dos mamíferos e, consideravelmente, as espécies que os cientistas tendem a usar no laboratório, tais como C. elegans Drosophila, têm formatos como os nossos. Já outras são estranhas, pelo menos de um ponto de vista centrado no ser humano. Eis uma amostra:

Linhas vermelhas mostram a mortalidade relativa, e linhas azuis mostram a fertilidade relativa. Áreas sombreadas mostram a proporção de indivíduos ainda vivos em uma dada idade. As cores dos quadros indicam o tipo de espécie: laranja para invertebrados; marrom para vertebrados não-mamíferos; verde para plantas. [Seres vivos em sequência, da esquerda para a direita: hidra, crocodilo-de-água-doce, andorinhão-real; tartaruga-do-deserto e hipérico.] Extraído de Jones et al. Nature 2013.

“Certos padrões que surgiram neste artigo não eram conhecidos por nenhum de nós”, diz Reznick, que estudou padrões de envelhecimento entre diferentes populações de guppies [peixes ornamentais também conhecidos como barrigudinhos]. “É loucura pensar que temos trabalhado com o envelhecimento há tanto tempo e algo tão fundamental quando isto ainda não havia sido observado”.

O que o novo estudo não encontrou, notavelmente, foi uma associação entre a duração da vida e o envelhecimento. Algumas espécies de evidente envelhecimento (aquelas com taxas de mortalidade que crescem bruscamente com o tempo) vivem por muito tempo, enquanto outras não. O mesmo vale para as espécies que não envelhecem. A alga-marinha, por exemplo, tem um nível de mortalidade quase constante por toda a sua vida, e vive cerca de oito anos. Em contraste, a hidra, um animal microscópico de água doce, possui mortalidade constante e vive colossais 1.400 anos.

Este é um problema para as teorias clássicas de envelhecimento, que supõem que a mortalidade aumenta com a idade, observa Alan Cohen, biólogo evolutivo da Universidade de Sherbrooke, em Quebec.

“A ideia tradicional é a de que isto é o que a maior parte das coisas faz, e de que haveria algumas criaturas estranhas que eram exceções”, diz ele. “Mas, na verdade, há muitas exceções”.

A questão que as teorias clássicas tentam responder — Como o envelhecimento poderia evoluir? — já não é a mais interessante, acrescente Cohen. “O que realmente precisamos explicar é o porquê de algumas coisas envelhecerem, e outras não”.

Atualmente, Cohen colabora com a equipe de Jones para formular uma nova teoria que responda a essa questão. [A autora pede que os leitores fiquem ligados, pois ela abordará todas as várias teorias nos próximos meses, em seu trabalho para a publicação digital Mosaic]

Dada a minha obsessão por pessoas, perguntei a alguns pesquisadores o que as novas descobertas poderiam representar para a nossa compreensão do envelhecimento humano, que a maioria de nós gostaria de evitar. Estudar as espécies que envelhecem como nós — ou as que vivem 1.400 anos, no caso — ajudar-nos-á a resistir ao declínio relacionado à idade? Estes estudos levariam a tratamentos que poderiam, digo, dobrar nossa expectativa de vida?

Cohen educadamente me lembra de que nós já descobrimos como prolongar nossas vidas. O novo estudo, além de comparar 46 espécies, comparou trajetórias de três grupos humanos: caçadores-coletores; aqueles nascidos na Suécia, em 1881; e modernas mulheres japonesas. As diferenças são gritantes:

Linhas vermelhas mostram a mortalidade relativa, e linhas azuis mostram a fertilidade relativa. [Grupos humanos, da esquerda para a direita: japonesas, em 2009; suecos nascidos em 1881 e caçadores-coletores.] Extraído de Jones et al., Nature 2013.

“Nas sociedades industriais, continuamos, em média, adicionando cerca de um ano à nossa expectativa de vida a cada cinco anos”, diz Cohen, graças aos avanços na saúde pública, nutrição, e cuidados médicos. Isso é bastante impressionante, e provavelmente continuará se todos nós comermos bem, nos exercitarmos, e evitarmos o estresse e o fumo, ele afirma. “Isso não vai nos levar a viver 200 [anos], mas pode, por fim, nos levar aos 110”.

Fonte: National Geographic

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This entry was posted on 10 de Dezembro de 2013 by in Biologia and tagged , , , , .

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