Make It Clear Brasil

Um apoio ao livre pensamento e a um entendimento do mundo baseado em evidências

Traduzindo: Is God Dying?

Deus Está Morrendo?

O declínio da religião e o surgimento dos “nenhuns”
Por Michael Shermer*

Ilustração: Izhar Cohen

Ilustração: Izhar Cohen

Desde o início do século XX, com o advento da educação laica de massa e a difusão do conhecimento científico através da mídia popular, previsões quanto à morte das divindades falharam e, em alguns casos — como no dos Estados Unidos — a religiosidade, na verdade, cresceu. Esta proporção está mudando. De acordo com uma pesquisa de opinião de 2013, que contou com a participação de 14.000 pessoas, em 13 nações (Alemanha, França, Suécia, Espanha, Suíça, Turquia, Israel, Canadá, Brasil, Índia, Coreia do Sul, Reino Unido e EUA), e que foi conduzida pela fundação alemã Bertelsmann em prol do seu Religion Monitor, existem ambos, uma aprovação generalizada da separação entre igreja e Estado, bem como um declínio da religiosidade com o tempo e através das gerações.

Em resposta às afirmações “Apenas políticos que acreditam em Deus são adequados para um cargo público” e “Proeminentes figuras religiosas devem exercer influência sobre decisões governamentais”, mesmo na super-religiosa América, apenas 25 por cento concordaram com a primeira, e 28 por cento, com a segunda. Todos os outros países apresentaram números menores (estando a Espanha no, ou perto do, fundo, com 8 e 13 por cento, e a Alemanha no meio, com 10 e 21 por cento, respectivamente). Além disso, a maioria dos países na pesquisa apresentou uma tendência declinante na religiosidade, especialmente entre os jovens. Na Espanha, por exemplo, 85 por cento dos entrevistados acima dos 45 anos de idade responderam ser moderadamente ou muito religiosos, mas apenas 58 por cento daqueles abaixo dos 29 anos disseram que o são. Na Europa, em geral, apenas entre 30 e 50 por cento disseram que a religião é importante nas suas próprias vidas.

Por que o declínio? Um fator é a dramática propagação da democracia ao redor do globo na última metade de século. A maioria dos entrevistados concordou que a democracia é uma boa forma de governo, sem diferenças entre as religiões. Uma das características de uma democracia é o desembaraço entre o sagrado e o laico, porque, em países religiosamente pluralísticos, ninguém pode alegar, legitimamente, um status especial pela adesão a uma fé. Democracias também têm maiores taxas de alfabetização e educação de massa, que levam à tolerância às crenças alheias, o que, por sua vez, diminui o absolutismo que a maioria das religiões exigiam no passado, portanto, comprometendo as alegações de posse da verdade por parte de qualquer religião sobre as outras.

Um segundo fator é a abertura das fronteiras econômicas, tal como foi feito entre as nações da União Europeia, o que substitui o tribalismo religioso de soma zero pelo mercado financeiro não-zero. O livre comércio e a divisão do trabalho constituem os maiores geradores de riqueza da história e, de acordo com o relatório Religion Monitor, usando os dados da pesquisa, o “bem-estar socioeconômico geralmente resulta em um declínio na significância social da religião na sociedade, e na queda nos números de pessoas que baseiam a práxis das suas vidas nas normas e regras religiosas”. Por quê? Uma das funções sociais da religião é a de ajudar os pobres, então, conforme a pobreza de um país declina (e, como na Suécia e em outros países europeus, os programas sociais governamentais ajudam os pobres), o mesmo faz, também, a religiosidade. E, já que as classes médias da maioria dos países estão crescendo a partir dos mais jovens, isto poderia explicar a afirmação do relatório de que “quase todos os países no estudo (…) exibem um declínio na centralidade e significância da religião na vida cotidiana, de uma geração à outra. Como regra geral, quanto mais jovens forem as pessoas, menor será sua religiosidade”.

Contudo, os autores advertem quanto a esboçar a conclusão nietzscheana de que Deus está morto: “Isto não significa que a religiosidade e o comportamento religioso desapareceram, ou desaparecerão, completamente das vidas das pessoas: entre 40% e 80% dos cidadãos europeus exibem, pelo menos, um grau médio de crença religiosa, de acordo com o índice de centralidade da religiosidade”. Ainda assim, a tendência é inconfundível em outra estatística do estudo. A porcentagem de pessoas que disseram ser “não religiosas ou não muito religiosas” é significativa, e o número dos EUA (cerca de 31 por cento) condiz com os de outros estudos.

Uma pesquisa do Pew Research Center de 2012, por exemplo, descobriu que a coorte religiosa de crescimento mais rápido na América é a dos “nenhuns” (aqueles sem afiliação religiosa), com 20 por cento (32 por cento nos adultos abaixo dos 30 anos), dividida entre ateus e agnósticos, com 6 por cento, e os não afiliados, com 14 por cento. Os números brutos são assombrosos: dada a população adulta americana (de idade superior a 18 anos) de 240 milhões, este número se traduz em 48 milhões de nenhuns, ou 14,4 milhões de ateus/agnósticos e 33,6 milhões de não afiliados. É um bloco poderoso de eleitores.

*Michael Shermer é um escritor de ciência americano, historiador da ciência e editor-chefe da revista Skeptic, fundada pelo próprio, que se dedica na investigação de alegações sobrenaturais e pseudocientíficas.

Fonte: Scientific American

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 12 de Dezembro de 2013 by in Religião and tagged , , .

Navegação

%d bloggers like this: