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Estudo controverso sugere que nosso ancestral seja bem… gelatinoso

A água-viva-de-pente pode ser o ancestral de todos os animais da Terra, de acordo com um novo estudo. Foto: Franco Banfi, Solent News/Rex Features via AP

A água-viva-de-pente pode ser o ancestral de todos os animais da Terra, de acordo com um novo estudo. Foto: Franco Banfi, Solent News/Rex Features via AP

Em uma versão pré-histórica do dilema entre “o ovo ou a galinha”, pesquisadores tentam, há muito tempo, descobrir qual grupo animal veio primeiro. Uma hipótese tradicional é a de que as esponjas, criaturas marinhas que se parecem mais com rochas ou corais, são nossos ancestrais animais mais antigos. Agora, um novo estudo genético sugere que as “águas-vivas-de-pente”, animais marinhos gelatinosos que se parecem com as águas-vivas (medusas), foram, de fato, os primeiros animais a evoluírem, há mais de 600 milhões de anos.

Apesar de uma discussão acerca da ancestralidade parecer acadêmica, a questão influencia o modo como os pesquisadores pensam a respeito da natureza da evolução animal, disse o co-autor do estudo, Andy Baxevanis, geneticista do Instituto Nacional de Investigações do Genoma Humano em Bethesda, Maryland.

As esponjas são criaturas simples, não possuem músculos ou um sistema nervoso, disse o cientista, ao passo que as águas-vivas-de-pente têm ambos. “Tem havido esse princípio de longa data na biologia evolutiva”, explicou Baxevanis, segundo o qual, uma vez que a evolução tenha levado a “algum tipo complexo de célula — como a musculatura ou um olho — ele não seria perdido”. Isto ocorreria porque manter músculos, ou um sistema nervoso, seria vantajoso para a sobrevivência.

Porém, se as águas-vivas-de-pente, pertencentes ao filo Ctenophora, forem anteriores às esponjas mais simples, esse princípio seria deturpado, sugerindo que os animais começaram com genes para uma biologia complexa e alguns grupos os perderam com o tempo.

Sequência completa

Baxevanis e seus colegas chegaram a essa conclusão depois de produzirem o primeiro sequenciamento genético completo de uma água-viva-de-pente, usando uma espécie chamada Mnemiopsis leidyi. Dos quatro grupos antigos de animais que disputam o título de primeiro ancestral animal — esponjas, ctenóforos, medusas, e um grupo denominado Placozoa — apenas o segundo ainda não tinha um sequenciamento completo de um dos seus membros, exame importante para que sejam se comparem as relações entre grupos de organismos.

Quando os pesquisadores iniciaram o projeto, estavam interessados, principalmente, em produzir esse sequenciamento genético e preencher a lacuna nos dados. Mas quando inseriram o genoma em um programa de computador que ajuda os pesquisadores na determinação das relações evolutivas entre organismos (campo de estudo conhecido como filogenia), foram surpreendidos.

Embora o modelo utilizado tenha indicado diversos cenários possíveis para a relação entre os ctenóforos e todos os outros grupos animais, alguns dos cenários mais prováveis colocaram estas criaturas gelatinosas na base da árvore filogenética animal.

“A divisão evolutiva mais profunda [à cerca de 600 milhões de anos] envolveu as águas-vivas-de-pente se separando do restante dos animais”, afirmou Baxevanis. Ele e seus pares comunicaram suas descobertas hoje no periódico Science.

Complicando as coisas

O novo estudo provocou furor entre os especialistas da área. Um trabalho de 2008 já havia sugerido que os ctenóforos são o grupo ancestral entre todos os animais, disse Mansi Srivastava, bióloga do Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge:

“Foi muito chocante para a comunidade”, disse Srivastava, que não se envolveu em nenhum dos estudos. “Muita gente não acreditou nos resultados”.

O problema consistiu no fato de os genomas de rápida evolução, como os encontrados nas águas-vivas-de-pente, por vezes, desestabilizarem os programas de computador utilizados para determinar relações evolutivas, explicou. Isso resultaria no agrupamento de alguns grupos com outros organismos, com os quais não estão necessariamente relacionados. Assim, muitos “pensaram que o artigo de 2008 fosse resultado disso”, e “com mais análises, pudemos responder a esta questão”.

É aí que entra o estudo: os autores forneceram mais dados através do sequenciamento do genoma completo, tornando possível pensar novamente no problema de “quem veio primeiro”. Entretanto, Srivastava e outros pesquisadores ainda estão hesitantes face às alegações de que as águas-vivas-de-pente são os ancestrais dos animais.

Encrenqueiros

Um dos problemas tem a ver com tempo, disse Hervé Philippe, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica em Moulis, França. “Tem que ser examinada a história dos organismos que ocorreram há mais de 600 milhões de anos”, afirmou Philippe, que não esteve envolvido no estudo atual.

Muitas mutações podem acontecer em centenas de milhões de anos, ponderou ele. Distinguir as primeiras mutações em um grupo ancestral, que deu origem a todos os outros animais, das mudanças genéticas mais recentes, é uma tarefa complicada, e alguns dos métodos que Baxevanis e sua equipe empregaram na análise não conseguiram esclarecer relações relativamente recentes entre grupos animais modernos. “Se você não consegue reconhecer eventos recentes, é improvável que reconhecerá eventos antigos”, disse Philippe.

Os autores reconhecem que algumas das árvores filogenéticas que surgiram do modelo deles abrem as portas para mais debates, pelos quais Baxevanis espera ansiosamente:

“Somos os encrenqueiros aqui”, disse ele. “Acho que é um grande exemplo de não se saber aonde a ciência o levará quando você começa”.

Fonte: National Geographic

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This entry was posted on 13 de Dezembro de 2013 by in Biologia and tagged , , , , , .

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