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A narcolepsia é uma doença autoimune, conclui estudo

Estrutura molecular da hipocretina. Estudo encontrou um grupo especial de linfócitos T, em pessoas com narcolepsia, que ataca o hormônio hipocretina, responsável pelo estado de vigília. Crédito: Nevit Dilmen/Wikimedia Commons

Estrutura molecular da hipocretina. Estudo encontrou um grupo especial de linfócitos T, em pessoas com narcolepsia, que ataca o hormônio hipocretina, responsável pelo estado de vigília. Crédito: Nevit Dilmen/Wikimedia Commons

Quando a epidemia de gripe suína H1N1 varreu o mundo, em 2009, a China viu crescerem vertiginosamente os casos de narcolepsia — transtorno crônico que envolve a sonolência súbita e incontrolável. Enquanto isso, na Europa, cerca de 1 em cada 15.000 crianças que receberam a Pandemrix — vacina atualmente fora de uso, que continha fragmentos do vírus causador da pandemia — também desenvolveram a narcolepsia.

A imunologista Elizabeth Mellins, o pesquisador Emmanuel Mignot, que estuda a narcolepsia (ambos da Faculdade de Medicina da Universidade Stanford, na Califórnia), e seus colaboradores resolveram parcialmente o mistério que permeia esses eventos, e também confirmaram uma hipótese antiga, segundo a qual a narcolepsia é uma doença autoimune, na qual o sistema imunológico ataca células sadias.

A narcolepsia é causada principalmente pela perda gradual dos neurônios responsáveis pela produção da hipocretina (ou orexina), hormônio que nos mantém acordados. Os cientistas suspeitavam que o sistema imunológico era o culpado, mas a equipe de Stanford descobriu as primeiras evidências diretas: um grupo especial de linfócitos T CD4+ (espécie de glóbulo branco) que ataca a hipocretina e só é encontrado em pessoas com narcolepsia. O estudo foi publicado hoje (19/12) no periódico Science Translational Medicine.

O neurologista Thomas Scammell, da Faculdade de Medicina de Harvard em Boston, afirma que os resultados são bem-vindos após “anos de modesta decepção”, marcados por diversas falhas na busca por anticorpos produzidos pelo corpo de uma pessoa agindo contra sua própria hipocretina. “É um dos maiores acontecimentos na campo da narcolepsia nos últimos tempos”.

Pendências

Ainda não está clara a razão pela qual algumas pessoas produzem esses linfócitos T e outras não, mas a genética influencia. Em um trabalho anterior, Mignot mostrou que 98% das pessoas com narcolepsia possuem uma variante do gene HLA que só é encontrada em 25% da população em geral.

Fatores ambientais, como infecções, provavelmente têm influência também. O modelo desenvolvido por Mollins sugere que a narcolepsia se desenvolve quando indivíduos com uma predisposição genética, o que envolve a presença de diversas variantes gênicas relacionadas à doença, encontram um fator ambiental que imita a hipocretina, ativando uma resposta por parte do sistema imunológico. O vírus H1N1 teria sido um desses gatilhos: a equipe descobriu que estes mesmos linfócitos T CD4+ especiais reconhecem uma proteína do vírus.

É claro que a narcolepsia existe desde muito antes da pandemia de 2009, e como novos casos da doença tendem a surgir depois do inverno — seguindo o pico anual dos casos de gripe — é possível que outras cepas, ou variedades, de vírus estevam envolvidas.

Porém, os resultados não explicam completamente o mistério da Pandemrix, pois outras vacinas contra a gripe contêm as mesmas proteínas, mas não levam a um aumento no número de casos de narcolepsia. Mesmo assim, Mellins diz ser possível evitar que os mesmos erros sejam cometidos, garantindo que futuras vacinas não contenham componentes que lembrem estruturalmente a hipocretina.

Outra pendência está no fato de “eles não mostrarem, realmente, como esses linfócitos T matam os neurônios da hipocretina”, acrescenta Scammell. “É como um assassinato misterioso, e não sabemos quem é o verdadeiro assassino”. Para ele, é improvável que os linfócitos T sejam os culpados. Ao contrário, eles podem agir através de um intermediário, ou podem ser simplesmente um sintoma de outro evento destrutivo.

“Os resultados são muito importantes, mas eles [os pesquisadores] precisam fazer uma repetição do estudo em um grande grupo de pacientes e controles”, diz Gert Lammers, neurologista do Centro Médico da Universidade Leiden, na Holanda, e presidente da Rede Europeia para a Narcolepsia. “Se as descobertas forem confirmadas, o primeiro efeito importante pode ser o desenvolvimento de um novo exame para diagnóstico”.

Fonte: Scientific American

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One comment on “A narcolepsia é uma doença autoimune, conclui estudo

  1. Vania
    5 de Janeiro de 2015

    Minha filha tomou a vacina h1n1 em abril de 2010 e em maio ficou doente mas só descobrimos que era narcolepsia em outubro . Nestes quatro anos ela engordou 34 quilos, hoje é uma menina triste com aumento do peso. Ela toma quatro medicações por dia.

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This entry was posted on 19 de Dezembro de 2013 by in Medicina and tagged , , , , , , , .

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