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Suicídio das células sugere novo tratamento para o HIV

Linfócito T H9, colorido em azul, turquesa e amarelo, infectado pelo HIV. Imagem: Wikimedia Commons/NIAID

Linfócito T H9, colorido em azul, turquesa e amarelo, infectado pelo HIV. Imagem: Wikimedia Commons/NIAID

A diferença entre uma infecção pelo HIV e a eclosão da AIDS é, em grande parte, o extermínio dos linfócitos T CD4 do sistema imunológico. Porém, os pesquisadores apenas observaram o vírus matando uma pequena porção dessas células, o que os leva a uma questão: O que faz as demais células desaparecerem? Um novo estudo mostra que o corpo está matando suas próprias células por meio de um processo pouco conhecido. Além disso, uma droga existente pode interromper esta autodestruição, oferecendo uma alternativa para o tratamento da AIDS.

O processo destrutivo pegou os cientistas de surpresa: “Pensávamos que o HIV infectasse uma célula, estabelecesse uma fábrica de produção de vírus e, então, a célula morresse como consequência de estar abarrotada de vírus. Mas não há fábricas suficientes para explicar as perdas imensas”, diz Warner Greene, diretor de virologia e imunologia dos Institutos Gladstone, cuja equipe publicou dois artigos — um na Science e outro na Nature — descrevendo o trabalho.

Greene desconfia que, no passado, os cientistas não conseguiram perceber o processo porque estavam procurando no lugar errado. Ao invés de estudar linfócitos T CD4 ativos no sangue, sua equipe examinou tecidos do baço e das amídalas, onde a maioria das células se encontra em estado de repouso. Quando o HIV adentra uma célula em repouso, ele transcreve seus genes no DNA dela, mas, então, chega a um beco sem saída: a maquinaria da célula não está disponível para completar o processo de replicação. Esta parte da história é conhecida há anos, mas o grupo de Greene descobriu que algo bastante surpreendente acontece em seguida.

“Ao invés de este ser o fim da história, as células detectam o DNA no seu citoplasma e lançam uma resposta imunológica contra ele, e esta resposta imunológica resulta na morte daquelas células.”

A resposta é um protocolo de autodestruição chamado piroptose. Ao contrário da conhecida apoptose, na qual as células morrem silenciosamente sem provocar inflamação, a piroptose não é uma morte insossa, mas uma “flamejante”, segundo Greene. As células expelem compostos químicos causadores de inflamação enquanto morrem, atraindo mais linfócitos T, que podem ser, então, contaminados pelos vírus liberados. “Em uma infecção bacteriana, recrutar todas essas células pode ser uma boa estratégia para conter a infecção”, ressalta o pesquisador, mas um ciclo vicioso de infecção pelo HIV resulta disso. A piroptose também explica por que a AIDS está associada a níveis elevados de inflamação.

Experimentos conduzidos pela equipe de Greene demonstraram que bloquear um componente fundamental para a piroptose poderia interromper a completa morte da célula; também foi identificada a proteína que percebe o DNA do vírus e dá origem ao processo. Após estudar o mecanismo em tecidos do baço e amídalas em culturas, foi possível confirmar as descobertas no gânglio linfático recentemente removido de um paciente, observado em telescópio. Ele demonstrou a replicação tradicional do vírus ocorrendo nas células do centro do gânglio e nas células em repouso que morriam ao redor. Para Greene, a observação foi inacreditável: “Pudemos ver este caminho piroptótico agindo como se não fosse da conta de ninguém. Em uma única fotografia, pudemos ver o que estava ocorrendo durante oito anos”.

Eis a boa notícia: Greene estima que 95 por cento das células que morrem em infecções pelo HIV, morrem através da piroptose, então, as descobertas aumentam a esperança de que um novo tipo de tratamento possa impedir que o HIV leve à AIDS. “Inibir a ativação do sistema imunológico não é um novo conceito, mas isto nos dá um novo processo para o qual nos direcionarmos”, diz Robert Gallo, diretor do Instituto de Virologia Humana da Faculdade de Medicina da Universidade De Maryland, que não se envolveu no estudo. Ele afirma que este mecanismo pode ser promissor, caso seja responsável pela maior porcentagem das mortes de linfócitos T.

De fato, já existe uma droga que pode bloquear a piroptose. Conhecida como VX-765, ela foi testada há anos pela companhia Vertex Pharmeceuticals como tratamento para ataques de epilepsia. Um experimento demonstrou que ela não era suficientemente eficaz contra os ataques, apesar de ser segura para uso humano. “Agora ela se encontra em uma prateleira, esperando por uma doença para curar”, diz Greene, que está tentando obter uma permissão para testar a droga em pacientes de HIV.

Gallo atenta para a possibilidade de que o bloqueio da morte das células as leve a replicar ainda mais o vírus, fato que, segundo Greene, não deve ocorrer, uma vez que as células degradarão o DNA viral e se recuperarão.

Greene vê a droga, se provada eficaz, como um paliativo para pacientes de países em desenvolvimento que não tenham fácil acesso aos antirretrovirais, ou como um acréscimo a este tratamento convencional.

Fonte: Scientific American

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This entry was posted on 20 de Dezembro de 2013 by in Medicina and tagged , , , , , , .

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