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Primatas com cérebros grandes: o que nos torna humanos?

Superficialmente, nós, humanos, temos muito em comum com outras espécies — mas nenhuma outra espécie fabrica carros, computadores e colheitadeiras.

Por Richard Dawkins

Koola, gorila-do-ocidente de 18 anos, segura seu filhote recém-nascido. Foto: Getty

Seres humanos são animais. Nós não somos plantas e não somos bactérias, somos animais. Entre os animais, somos primatas, especificamente, primatas africanos. Os outros primatas africanos — chimpanzés, bonobos e gorilas — são primos mais próximos de nós do que o são dos primatas asiáticos — orangotangos e gibões.

Então, uma maneira de compreender o que nos torna humanos é perguntar: “O que nos torna diferentes dos outros primatas e do restante do reino animal?” O que nos torna especiais? Por exemplo, ao contrário dos demais primatas, nós caminhamos sobre duas pernas, e isto libera nossas mãos para fazer toda uma diversidade de coisas que outros primatas não conseguem. E (talvez as duas estejam conectadas) nós temos cérebros muito maiores do que os outros primatas.

Existe uma outra forma de interpretar a questão “O que nos torna humanos?” com a qual eu não vou me envolver, apesar de ser importante. O que nos torna humanos? Quais são as qualidades que admiramos e almejamos: qualidades que nos tornam humanos como oposto de selvagens?

Nós temos cérebros grandes. Outras espécies são definidas por outras qualidades. Andorinhões e albatrozes são espetacularmente bons no voo; cães e rinocerontes, no olfato; morcegos, na audição; toupeiras, aardvarks e vombates, na escavação. Seres humanos não são bons em nenhuma dessas coisas. Mas nós temos cérebros muito grandes; somos bons para pensar, lembrar, calcular, imaginar, falar. Outras espécies podem se comunicar, mas nenhuma possui uma verdadeira linguagem, com uma gramática aberta. Nenhuma outra espécie possui literatura, música, arte, matemática ou ciência. Nenhuma outra espécie produz livros, ou máquinas complicadas, como carros, computadores e colheitadeiras. Nenhuma outra espécie dedica períodos de tempo substanciais a atividades que não contribuem diretamente para a sobrevivência ou a reprodução.

Nossos cérebros exclusivamente grandes evoluíram depois do nosso hábito de caminhar sobre duas pernas. Podemos traçar nossa ancestralidade através de uma série bastante contínua de fósseis, e estamos confiantes de que nossos ancestrais de três milhões de anos atrás eram membros do gênero Australopithecus. A australopitecina mais conhecida é Lucy — assim chamada porque o toca-discos do acampamento na Etiópia estava tocando “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles, quando os caçadores de fósseis retornaram ao acampamento com a formidável notícia de sua descoberta. Lucy tinha um cérebro do tamanho do de um chimpanzé, mas caminhava sobre as pernas traseiras. Não é, provavelmente, um acidente que nosso cérebro tenha começado a se dilatar como ou balão evolutivo depois de nossas mãos serem liberadas do fardo de caminhar e poderem se concentrar no transporte de alimento e na manipulação de ferramentas.

Porém, os seres humanos demonstraram o quanto são especiais apenas recentemente. Há cinquenta milhões de anos, tínhamos os mesmos corpos e cérebros que temos hoje, e provavelmente tínhamos linguagem. Mas não produzíamos muito sob a forma de arte, e nossos artefatos estavam limitados à praticidade — ferramentas de pedra para caçar e cortar alimentos, por exemplo.

Isso mudou há cerca de 40.000 anos, quando o registro arqueológico mostra um repentino e magnífico florescimento da arte e, até mesmo, dos instrumentos musicais. A evolução cultural — mais veloz, em ordens de magnitude, do que a superficialmente similar evolução genética, que havia dado origem aos nossos cérebros grandes, em primeiro lugar — entrou em sobremarcha. A seguir, veio a transição do estilo de vida caçador/coletor para o da agricultura sedentária, prontamente seguido pelas cidades, mercados, governos, religião e guerra. A Revolução Industrial expandiu as cidades para megalópoles, impulsionando nossa espécie para a dominação mundial (e potencialmente desastrosa), e, ainda, para alcançar a Lua e os planetas.

Simultaneamente, a mente humana alcançou o universo mais amplo, muito além das restrições da expectativa de vida humana. Agora sabemos que o mundo que limitava as curtas vidas dos nossos ancestrais é um pontinho orbitando uma pequena estrela entre algumas centenas de bilhões de estrelas, em uma galáxia mediana entre centenas de bilhões de galáxias. Sabemos que o mundo começou há 4,6 bilhões de anos, e o universo, há 13,8 bilhões. Nós compreendemos o processo evolutivo que nos gerou, e que gerou toda a vida baseada no DNA.

Há muito que ainda não compreendemos, mas estamos trabalhando nisso. E o desejo de fazê-lo é, talvez, a mais inspiradora de todas as qualidades ímpares que nos tornam humanos.

Fonte: New Statesman

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2 comments on “Primatas com cérebros grandes: o que nos torna humanos?

  1. Alex Augusto
    6 de Janeiro de 2014

    Muito bom,interessante e bem explicado!

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This entry was posted on 6 de Janeiro de 2014 by in Ciência e Tecnologia and tagged , , , .

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