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Biofluorescência: a “segunda pele” dos peixes

A espécie de peixe-gato Scyliorhinus retifer, que emite uma fluorescência verde. Foto: J. Sparks, D. Gruber, e V. Pieribone

A espécie de peixe-gato Scyliorhinus retifer, que emite uma fluorescência verde. Foto: J. Sparks, D. Gruber, e V. Pieribone

São muitos os casos de animais marinhos que aparecem brilhantes ao olho humano na escuridão oceânica. As cores de diversos peixes, águas-vivas e plâncton, por exemplo, brilham através de um processo químico conhecido como bioluminescência. Alguns animais também produzem cores brilhantes que não são visíveis ao olho humano graças à biofluorescência, mecanismo no qual elétrons contidos em determinadas proteínas absorvem a luz em um comprimento de onda e a reemitem em um comprimento de onda menos energético. Utilizando filtros especiais, os humanos podem ver tal fluorescência em tons de vermelho, verde ou laranja.

Contudo, peixes que parecem opacos aos nossos olhos também podem se vestir de uma “segunda pele”: uma de cores vistosas e segundo um novo estudo visíveis apenas aos outros peixes. Pesquisadores do Museu Americano de História Natural, em Nova York, realizaram um projeto que visou determinar a extensão do fenômeno da biofluorescência no universo marinho, analisando centenas de espécies das coleções de aquários nas Bahamas, nas Ilhas Salomão e nos Estados Unidos.

Surpreendentemente, 20% do grupo amostral (mais de 180 espécies) exibia o fenômeno. John Sparks, coautor do estudo, resume o sentimento da equipe: “Pensávamos que, se encontrássemos alguma [biofluorescência], ela seria relativamente rara entre os peixes”. E acrescenta: “Eu nunca esperava que ela fosse tão difundida”.

Sparks se diz surpreso pelas descobertas, já que poucos estudos haviam relatado o fenômeno, provavelmente, porque são necessários equipamentos especiais para captar a luz e torná-la visível ao olho humano. Para analisar os animais, os pesquisadores se dirigiram aos locais de estudo à noite, a fim de evitar a luz ambiente, e estimularam a biofluorescência com o auxílio de luz azul de alta energia. Então, filtros e câmeras especiais captaram o brilho.

De acordo com artigo publicado no periódico PLOS ONE, foi grande a variação de padrões, cores e intensidade da fluorescência verificada, mesmo entre espécies estreitamente relacionadas que pareciam quase idênticas sob a luz branca normal. Os pesquisadores ainda descobriram que os peixes que se camuflavam melhor — aqueles com as colorações mais tênues sob luz branca — produziam o brilho mais acentuado.

Um peixe-escorpião (Scorpaenopsis papuensis) vermelho-fluorescente nada em meio às algas de biofluorescência similar, nas Ilhas Salomão. Crédito: PLOS ONE

Além disso, foi possível determinar que quase todos os grupos de peixes estudados contêm filtros nos olhos que, teoricamente, permitem-nos ver as cores brilhantes, invisíveis para nós. Isto sugere que os peixes usem a coloração como forma de comunicação ou camuflagem. (O peixe-escorpião, por exemplo, irradia um brilho alaranjado semelhante ao emitido pelos corais onde se abriga.) Curiosamente, muitos predadores, como algumas espécies de tubarão, não têm os filtros visuais que os fariam enxergar as cores brilhantes das suas potenciais presas. Portanto, os cientistas acreditam que a fluorescência pode dar aos peixes um comprimento de onda privado, pelo qual eles podem se comunicar com animais da mesma espécie.

As evidências para este quadro têm sido encontradas em certos cefalópodes (grupo de animais marinhos que inclui lulas, polvos e sépias) biofluorescentes. Mesmo assim, mais estudos são necessários para que seja possível identificar a função das cores e o grau em que os peixes podem vê-las, admite Spark.

Exemplos da diversidade de biofluorescência encontrada pelos pesquisadores: A) uma espécie de peixe-gato (Cephaloscyllium ventriosum); B) arraia (Urobatis jamaicensis); C) linguado (Soleichthys heterorhinos); D) flathead (Cociella hutchinsi); E) peixe-lagarto (Saurida gracilis); F) peixe-sapo (Antennarius maculates); G) peixe-pedra (Synanceia verrucosa); H) espécie de falsa-moreia (Kaupichthys brachychirus); I) espécie de falsa-moreia (Kaupichthys nuchalis); J) peixe-agulha (Corythoichthys haematopterus); K) sand stargazer (Gillellus uranidea); L) espécie de caboz (Eviota sp.); M) espécie de caboz (Eviota atriventris); N) peixe-cirurgião (Acanthurus coeruleus); O) threadfin bream (Scolopsis bilineata). Crédito: PLOS ONE

O biólogo Tom Cronin, da Universidade de Maryland, que estuda a fluorescência em invertebrados e não se envolveu no estudo, considera o relatório interessante, mas disse que não está convencido da significância da fluorescência para os peixes. Ele afirma que esta pode ser apenas fortuita, comparando-a ao modo como os dentes humanos irradiam um brilho azulado sob a luz ultravioleta por nenhuma razão evolutiva aparente.

“A verdadeira questão”, diz Cronin, “é se a fluorescência é forte o bastante para fazer alguma diferença à cor do animal percebida”.

Os pesquisadores pretendem responder a esta questão estudando a possível significância comportamental da coloração. Espera-se documentar a ocorrência da fluorescência em mais espécies, a fim de melhor entender seu papel na evolução de peixes que, de outro modo, parecem idênticos, diz Sparks.

Fonte: LiveScience

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This entry was posted on 9 de Janeiro de 2014 by in Biologia and tagged , , , , .

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