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Vivemos “a era mais pacífica” na história humana — com uma grande exceção

Em geral, o mundo desfruta de uma paz sem precedentes, de acordo com um novo estudo. Mas os conflitos religiosos têm aumentado

Por C.J. Werleman

Um fuzil AK-47. Foto: Wikipedia

Um fuzil AK-47. Foto: Wikipedia

Estudos demonstram que o mundo vem se tornando menos violento, e que as guerras estão em declínio. Há um aspecto da existência humana, no entanto, que continua a levar humanos a cometerem atos de violência e atrocidades contra outros humanos. Um novo e importante estudo publicado pelo Pew Research Center mostra que as hostilidades religiosas atingiram um pico em 2012, em comparação com os 5 anos anteriores.

O Dr. Steven Pinker, autor vencedor do prêmio Pulitzer e professor de psicologia de Harvard, escreve que “[h]oje, podemos viver na era mais pacífica da existência de nossa espécie”. Ele reconhece: “Em um século que começou com o 11 de setembro, Iraque e Darfur, a alegação de que estamos vivendo em uma época excepcionalmente pacífica pode soar para você como algo entre o alucinatório e o obsceno”. Pinker ressalta que as guerras viram manchetes, mas há menos conflitos hoje, e as guerras não matam tantas pessoas quanto fizeram na Idade Média, por exemplo. Ainda, as taxas globais de crimes violentos vêm despencando nas últimas décadas. Pinker observa que a razão para estes avanços é complexa, porém, certamente, o progresso da educação e uma disposição crescente a nos colocarmos no lugar dos outros têm seus papéis.

A religiosidade, entretanto, continua a ter seu papel na promoção do pensamento que distingue entre dentro do grupo/fora do grupo, o que diferencia as pessoas em termos de recompensas eternas e punições. Sam Harris, autor de “Carta a uma Nação Cristã”, observa que “[a] fé inspira a violência de duas maneiras. Primeiro, as pessoas frequentemente matam outros seres humanos porque acreditam que o criador do universo quer que elas o façam…Segundo, grupos muito maiores de pessoas entram em conflito uns com os outros porque definem sua comunidade moral com base na sua filiação religiosa: muçulmanos se unem a muçulmanos; protestantes, a protestantes; católicos, a católicos”.

De acordo com o Pew Research Center, um terço (33%) dos 198 países e territórios incluídos no estudo tinham elevadas hostilidades religiosas em 2012, acima dos 29% de 2011, e dos 20% de meados de 2007. Notavelmente, as hostilidades religiosas aumentaram em todas as principais regiões do mundo, com exceção das Américas, com os acréscimos mais dramáticos tendo sido percebidos em áreas que ainda sentem os efeitos das insurreições políticas de 2010-11, que ficaram conhecidas como a Primavera Árabe.

O estudo demonstra ter havido um aumento considerável na porcentagem dos países com níveis elevados ou muito elevados de hostilidades sociais envolvendo a religião. “Incidentes de abuso deflagrados contra minorias religiosas foram relatados em 47% dos países em 2012, acima dos 38% de 2011, e dos 24% do ano-base do estudo (2007)”. O Pew cita diversos exemplos de minorias religiosas sendo atacadas pelos criminosos da fé majoritária. No Sri Lanka, onde o budismo é majoritário, por exemplo, monges atacaram locais de adoração islâmicos e cristãos em abril de 2012. Diversos adoradores foram mortos em um ataque contra uma igreja ortodoxa copta na Líbia, o que, de acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, foi o primeiro ataque a uma igreja na Líbia desde a revolução de 2011.

“Uma das coisas comuns que vemos nesse grupo de países é o conflito sectário”, disse Brian J. Grim, pesquisador sênior do Pew Research. “No Paquistão, apesar de grupos de minoria religiosa, como os cristãos, enfrentarem hostilidade, também há um conflito inter-muçulmanos entre sunitas, xiitas e muçulmanos ahmadis.

O estudo encontrou acréscimos nas ameaças de violência motivadas pela religião, assédio de mulheres por conta das vestes religiosas, violência religiosa por parte de multidões, violência sectária, e violência terrorista associada à religião. Um em cada cinco países registrou terrorismo motivado pela religião em 2013, acima do registro por parte de um em cada dez países em 2007. Exemplos citados incluem os assassinatos de um rabino e três crianças judias por um extremista islâmico, em uma escola judaica de Toulouse, França. A pesquisa também menciona o tiroteio em um templo sikh de Wisconsin, em agosto de 2012, que deixou seis fiéis mortos e outros três feridos. Embora o ataque do al-Shabab em um shopping de Nairóbi, em 2013, tenha ficado fora do alcance temporal estudado na análise, o atentado terrorista motivado por islamitas assinala um aumento constante do terrorismo relacionado à religião no Quênia, que surgiu quando mais de uma dúzia de cristãos foi morta por islamitas perto da fronteira entre o Quênia e a Somália, em novembro de 2012.

Onde quer que você olhe no mundo, a violência motivada pela religião continua a existir. Da luta que tem assombrado a Palestina nas últimas seis décadas (judeus contra muçulmanos) à disputa da Caxemira (muçulmanos contra hindus). Ainda, temos a Nigéria (muçulmanos contra cristãos), Filipinas (muçulmanos contra cristãos), Iraque (muçulmanos sunitas contra xiitas), Sudão (muçulmanos contra cristãos), Sri Lanka (budistas cingaleses contra hindus tâmeis), e a região do Cáucaso (russos ortodoxos contra muçulmanos chechenos).

Apesar de a maioria dos exemplos acima terem base em disputas quanto à terra e ao controle político, é a crença religiosa quem modela os termos e a disposição de um grupo a negociar com o outro. A guerra, por definição, sugere um conflito de tudo ou nada para resolver uma disputa contra um inimigo que se acredita estar determinado a nos destruir, e, portanto, não pode ser aplacado por meios diplomáticos. Em outras palavras, guerra e violência se tornam uma desculpa para a falta de um acordo. A religião fornece a desculpa para ser violento.

Harris escreve: “As próprias Escrituras permanecem um motor perpétuo para o extremismo: porque, apesar de Ele ser muitas coisas, o Deus da Bíblia e do Corão não é moderado. Lendo as escrituras atentamente, não se encontram razões para ser um religioso moderado; encontram-se razões para ser um religioso lunático — para temer o fogo do inferno, para desprezar os descrentes, para perseguir homossexuais, etc. É claro, qualquer um pode escolher os escritos que melhor lhe convenham e encontrar razões para amar ao próximo e dar a outra face. Mas, quanto mais plenamente uma pessoa der crédito a esses livros, mais ela será convencida de que infiéis, hereges e apóstatas merecem ser despedaçados em átomos na amável máquina de justiça de Deus”.

O livro “When Religion Becomes Evil” [“Quando a Religião se Torna um Mal”, em tradução livre], de Charles Kimball, começa com a seguinte afirmação: “De certa forma, é trivial, contudo, infelizmente correto, dizer que mais guerras foram travadas, mais pessoas mortas e, atualmente, mais mal cometido em nome da religião do que no de qualquer outra força institucional na história humana”. É fácil para o cristianismo americano rejeitar isto e rejeitar estudos que mostram acréscimos na violência religiosa, pois isto pode ser dispensado como algo que ocorre “lá” naqueles “países loucos”. Mas, para que não nos esqueçamos, foram cristãos americanos da direita que ajudaram a moldar as leis anti-gays de Uganda, que determinam a prisão perpétua para atos homossexuais e a pena de morte para a reincidência.

Os achados do estudo do Pew Research Center confirmam a importância do secularismo, já que pode ser vista uma forte conexão entre governos que impõem crenças, costumes e normas religiosas sobre seus cidadãos e a irrupção da violência sectária. Esperemos que a América esteja ouvindo.

Fonte: Salon

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This entry was posted on 15 de Janeiro de 2014 by in Religião and tagged , , , .

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