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Cérebro de paciente famoso é cortado em 2.401 fatias

Imagem do cérebro de H.M. congelado capturada durante o procedimento de corte. Crédito: Annese et al., 2014

Imagem do cérebro de H.M. congelado capturada durante o procedimento de corte. Crédito: Annese et al., 2014

Em dezembro de 2008, faleceu o paciente mais famoso da neurociência moderna. Pouco tempo depois da morte, o corpo de Henry Molaison, 82 — conhecido como Paciente H.M. em inúmeros artigos científicos — foi transferido para o Hospital Geral de Massachusetts em Boston, onde passou por exames de ressonância magnética. Depois deste procedimento, o neuroanatomista Jacopo Annese e o neuropatologista Matthew Frosch conduziram a extração do cérebro de H.M.

O cérebro em questão é um dos mais importantes do mundo, pois, em 1953, aos 27 anos de idade, H.M. foi submetido a uma cirurgia experimental que visava tratar as terríveis crises epilépticas sofridas por ele desde sua infância. De fato, as crises desapareceram depois que o cirurgião William Beecher Scoville removeu partes dos lobos temporais logo acima das orelhas, retirando, inclusive, a maior parte do hipocampo de H.M. Porém, o efeito colateral do procedimento foi uma amnésia permanente: até o fim da sua vida, o paciente reteve apenas as memórias obtidas antes da cirurgia.

Apesar da falta de memória, H.M. possuía uma inteligência normal, o que indicou a especificidade do hipocampo. Além de participar de muitos estudos em vida, o homem doou seu cérebro para a ciência, e Annese relata a expectativa criada na extração do órgão, que deveria ser perfeita, a fim de que mais características fossem descobertas pela neurologia. “Este artefato é muito importante, e você pode causar muito dano quando faz uma autópsia, se não for cuidadoso”. Felizmente, os cientistas recuperaram o cérebro intacto e o conservaram em formol, ao qual Annese lentamente (durante dez meses) adicionou sacarose. Este processo criou um crioprotetor, composto que permite ao cérebro ser congelado sem que cristais de gelo danosos se formem no tecido.

Um ano após a morte de H.M., a equipe do laboratório de Annese, na Universidade da Califórnia em San Diego, congelou o cérebro e o “fatiou” em 2.400 lâminas extremamente finas. O grupo de pesquisadores transmitiu o procedimento, assistido por cerca de 400 mil pessoas, ao vivo pela internet. No final, apenas duas lâminas foram danificadas. Abaixo, temos um vídeo que mostra parte deste trabalho, cuja duração total atingiu 53 horas.

Uma câmera, montada acima do cérebro congelado, tirou fotos de cada lâmina em alta resolução, e estas imagens foram transformadas em um banco de dados digital do cérebro do Paciente H.M., conforme descreve Annese em artigo no periódico Nature Communications. A intenção é disponibilizar o banco de dados para qualquer pesquisador que esteja interessando em estudá-lo, diz ele.

As caixas marcam o que sobrou do hipocampo de H.M. Crédito: Annese et al., 2014

A imagem ao lado, por exemplo, ilustra o modo como as lâminas podem ser acessadas. Nela, as caixas demarcam parte do que restou do hipocampo de H.M. Apesar de parecer pouco (e a ênfase nos estudos com o cérebro tem sido dada a este aspecto), pesquisas realizadas do final dos anos 1990 em diante contaram com técnicas de imagem para descobrir que H.M. possuía cerca de 50% da região, fato comprovado pela pesquisa mais recente. O banco de dados também fornece aos pesquisadores uma visão privilegiada de células individuais do hipocampo, permitindo que suas estruturas moleculares sejam visualizadas.

De maneira geral, a nova dissertação se junta a outros estudos no sentido de desviar o foco de regiões individuais do cérebro, tais como o hipocampo, para a interação entre áreas conectadas. “Certamente, concorda-se que o hipocampo é crítico para a memória episódica”, afirma Rebecca Burwell, pesquisadora da Universidade Brown que não se envolveu no trabalho. (Denomina-se episódica a memória que nos permite gravar e afirmar eventos autobiográficos, como as viagens e festas.) “Mas as novas descobertas confirmam que compreender os circuitos cerebrais, neste caso, os caminhos que entram e saem do hipocampo, é a chave para se entender como o cérebro sustenta a memória e outros processos cognitivos”.

O cérebro de Henry Molaison é o mais conhecido daqueles que atualmente passam pelo processo de congelamento e corte no laboratório de Annese, e outras 300 pessoas já concordaram em doar os seus cérebros (quando vierem a falecer, é claro). O cientista espera que a digitalização radicalize a maneira como estocamos fontes de informação como estas, protegendo os órgãos de ambientes mal aclimatados e reduzindo o espaço físico necessário para o armazenamento.

Fonte: National Geographic

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3 comments on “Cérebro de paciente famoso é cortado em 2.401 fatias

  1. Pompilho Falasca
    29 de Janeiro de 2014

    Olá, talvez possa dar uma humilde contribuição ao tratamento da epilepsia.

    Em 1974, julho fui ministrar aulas no Hospital psiquiátrico do Juqueri em Franco da Rocha, aulas de pintura no setor de terapia ocupacional, três horas de aulas e vinte e uma as voltas com a preciosa biblioteca que lá existia.Karl Menninger ” The Humam Mind” era o preferido entre Karl Jung e Sigmund Freud, minha atenção era para os frequentes ataques de epilepsia que presenciava.

    Já havia presenciado meu avô com ataques de epilepsia frequentes na minha infância ( eram vistos como possessão espiritual, tsssssshc…) e a oportunidade de aprender mais sobre isto, me levou a combinar todos os fantasmas do passado com os da fantástica biblioteca do hospício e concluir que a disfunção elétrica no cérebro que gera um ataque epiléptico pode ser controlada por uma corrente magnética contraria ao fluxo neural.

    Depois de incansáveis experiências, uma pulseira de chapa de aço inox ferroso de 10 mm de largura e 0,5 mm de espessura colocada sem solda entre o bíceps e as articulações do ombro, eliminou por completo os ataques de uma pessoa que os tinha constantemente (3 vezes por semana).

    Assim, sem mais para este momento agradeço e coloco-me a disposição para esclarecimentos a respeito.Forte Abraço

    • Make It Clear Br
      29 de Janeiro de 2014

      Gostaria de saber se os testes foram publicados em algum periódico, para que eu tenha acesso. Obrigado por ler e comentar!

      • Pompilho Falasca
        29 de Janeiro de 2014

        Não, não revelei a ninguém, com exceção, é claro, as pessoas e famílias envolvidas.

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This entry was posted on 28 de Janeiro de 2014 by in Ciência e Tecnologia, Medicina and tagged , , , , , , .

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